Esquerdistas, os maiores inimigos dos quadrinhos?

Editorial de Bill Gaines

 

Brincadeira, ironia ou sinceridade? A figura acima é o scan de uma página editorial publicada nas revistas da EC Comics, de Bill Gaines, em agosto de 1954, ele acusava esquerdistas (comunistas) de serem os maiores perseguidores dos quadrinhos. 

Na época, em plena Guerra Fria, quando ser comunista nos EUA poderia levar um sujeito a cadeira elétrica, esse editorial foi encarado como uma brincadeira de mau gosto. É sim uma brincadeira, porém, ela tem um fundo de verdade.

Na América, os maiores inimigos dos quadrinhos eram Fredric Wertham e Estes Kefauver. Hoje em dia poucas pessoas que leem quadrinhos sabem realmente quem foram essas figuras infelizes.

Wertham

Fredric Wertham

O primeiro era um psiquiatra que se dedicava a crítica e análise da “cultura de massas” e implicava especialmente com os quadrinhos. Era um esquerdista (ou “liberal“, como dizem nos EUA), amigo de Theodor Adorno, o marxista idealizador da crítica da “indústria cultural”.

Preocupado com a delinquência juvenil e diversos problemas sociais, Wertham elaborou sua própria versão da crítica cultural, com elementos de psiquiatria. Sua experiência em uma clínica de atendimento psiquiátrico gratuito, que ele criou para ajudar pessoas carentes, o fez concluir que os criminosos juvenis eram levados a violência e a imoralidade por serem leitores de gibis. Seu objetivo era livrar as crianças e jovens da perniciosa influência das revistas de crime e horror, diminuindo assim a delinquência.

Muito já foi dito sobre Wertham e seu livro Sedução do Inocente, mas nunca se corrigiu um erro grave: o verdadeiro posicionamento dele era a esquerda. Ao contrário do que se pensa hoje, ele jamais foi um conservador. Alguns religiosos o seguiram em sua cruzada contra os quadrinhos, mas ele mesmo nunca teve essa posição.

Senador Democrata Estes Kefauver


A segunda figura infeliz que entrou pra história como inimigo dos quadrinhos, Estes Kefauver, era um senador do Partido Democrata, a esquerda americana. Foi ele quem se prontificou a interrogar os editores de quadrinhos de crime e horror na comissão parlamentar de inquérito que colocou contra a parede Bill Gaines, da EC Comics. A comissão foi organizada por Robert Hendrickson, republicano, mas foi Kefauver que mais se interessou nela, visando uma plataforma política para sua nomeação a candidato a vice presidente. Com a ajuda de Wertham e contando com o descontrole emocional de Bill Gaines, ele conseguiu convencer a opinião pública de que os quadrinhos eram uma das principais causas da delinquência juvenil.

Na Inglaterra, os dois principais inimigos dos quadrinhos eram George Pumphrey e Peter Mauger.

A desconfiança com os quadrinhos americanos já existia como uma reação a influência estrangeira. Com uma população mais alfabetizada e uma grande tradição de literatura de fantasia, os britânicos rejeitavam as revistas em quadrinhos como um gênero inferior e vulgar, que poderia corromper a moralidade e os costumes locais.

Aproveitando-se disso, George Pumphrey lançou uma campanha contra os quadrinhos nos mesmos moldes daquela que foi feita nos EUA, porém, com razões distintas. A principal preocupação dele era com a aceitação pelas classes trabalhadoras britânicas dos valores da cultura americana. Pumphrey era diretor de escola e tinha inclinações reformistas.

comics_and_your_children

Clique na imagem para ver mais

Os militantes do Partido Comunista Britânico tinham os mesmos receios, de que os trabalhadores fossem “contaminados” com ideologia ianque, então criaram o Comics Campaign Council, que ajudou Pumphrey a lançar o livreto Comics and your Children, detonando os quadrinhos.

Foi ai que surgiu Peter Mauger, militante comunista radical e antiamericano, ele escreveu diversos artigos criticando os quadrinhos de horror.

Artigo de Peter Mauger


Pumphrey tinha influência no sistema educacional e no sindicato dos professores, os comunistas o transformaram em seu principal porta voz e ele conseguiu chamar a atenção do ministro da educação. Em junho de 1955, entrou em vigor no Reino Unido uma lei que proibiu os quadrinhos com cenas de crime e horror.

Peter Mauger, militante comunista, sorriu radiante, sua cruzada antiamericana tinha vencido. O que ele não sabia era que os quadrinhos mais inocentes, e nem por isso menos americanos da Marvel, dominariam o mercado britânico logo, logo.

Comunistas e esquerdistas continuam a perseguir os quadrinhos, como já demonstrei em vários artigos. Porém, hoje eles não fazem campanhas que possam levar a uma comoção da opinião pública, atuam muito mais em estudos acadêmicos e na inserção da agenda politicamente correta e anti ocidental nos quadrinhos mainstream. Eles são herdeiros das figuras infelizes que citei neste pequeno artigo, e continuam sendo os maiores inimigos dos gibis.

Para saber mais

Gerard Jones – Homens do Amanhã – geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis

 Martin Barker – Haunt of Fears: The Strange History of the British Horror Comics Campaign

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12 comentários

  1. Há outras coisas a se levar em conta aí. Não havia quadrinhos na URSS porque a Revolução Comunista tomou o poder antes deles se popularizarem e portanto não havia abertura cultural no país mais tarde para receber o material americano quando este se popularizou. Na verdade, a Rússia pós-comunista continua sem ter praticamente nenhuma HQ até hoje – e atualmente isso não tem nada a ver com ideologia, é porque como eles não tinham antes desenvolveram preconceito contra essa forma de arte.

    Alguns países que entraram na esfera de Moscou mais tarde já tinham quadrinhos e continuaram tendo, por exemplo a Polônia ou a China. Esta, ainda nominalmente comunista, tem hoje em dia um mercado gigantesco. Os mangás e os quadrinhos europeus o têm explorado muito bem – Tintim vende dois milhões de álbuns por ano no país hoje em dia!

    Mesmo Cuba já teve um pequeno mercado de quadrinhos no tempo do Fidel, antes da economia desabar de vez. No Tex Gigante do Orestes Suarez (ele próprio cubano) “Rebeldes de Cuba” o autor fala da sua carreira no país antes de ter passado a trabalhar para editoras europeias.

    Mas há um exemplo ainda melhor. Antes da Segunda Guerra, a maior parte das revistas em quadrinhos na França (e na Bélgica) era de inspiração católica. Um exemplo famoso era a Coeurs Vaillantes, que republicava o Tintim na França. Quando os alemães ocuparam o país, várias dessas publicações “abraçaram” a ideologia nazista. O Partido Comunista Francês, lançado na ilegalidade, não gostou nada e fez as suas própria HQs, de início na ilegalidade (sim, havia literalmente pessoal da Resistência Francesa – não apenas comunistas – dedicado a fazer quadrinhos, como por exemplo Edmond-François Calvo e Marijac).

    Depois da guerra, os comunas decidiram publicar uma revista em quadrinhos, a Vaillant. O personagem de maior sucesso da revista (que não pregava o comunismo nas suas histórias) era o cãozinho Pif (que ficou conhecido no Brasil pelo desenho animado “Pif e Hércules”), então eventualmente a revista se tornou a Pif Gadget (tinha esse nome porque sempre trazia um “gadget”, um brinquedo de montar, de brinde para as crianças). E foi essa mesma revista que entrou em contato com Hugo Pratt para que esse fizesse uma série para ela. O italiano decidiu retomar um dos protagonistas de um dos seus trabalhos anteriores de pouco sucesso, A Balada do Mar Salgado. E portanto foi graças a ela que temos as aventuras de Corto Maltese, já que o personagem só se tornou conhecido e popular nas páginas da revista.

    Portanto não vamos generalizar. Os comunistas russos podiam odiar quadrinhos, mas os russos em geral não gostam deles até hoje. Já os franceses os adoravam e é graças a eles que o Hugo Pratt pôde fazer o Corto Maltese. Ser comunista ou não tem pouco a ver com gostar de quadrinhos. Conheço comunistas que adoram quadrinhos e pessoal de direita que os detesta (e vice-versa, claro).

    O pessoal que perseguia os quadrinhos normalmente tinha interesses. O Comics Code não foi criado pelo congresso americano (que NUNCA fez uma lei proibindo os quadrinhos!) e sim pelas próprias editoras, maior parte das quais queria ver a caveira da EC. Na França, as leis de restrição aos quadrinhos (e, sim, lá chegou a ter leis!) foram criadas a pedido dos católicos e dos comunistas – EXATAMENTE o pessoal que publicava quadrinhos por lá! – com o intuito de bloquear a importação de material “corruptor” estrangeiro, nominalmente os quadrinhos americanos, britânicos (o Reino Unido teve uma indústria de quadrinhos forte até os anos 80, ao contrário do que você fala acima) e até mesmo os inocentes quadrinhos belgas (também eles criados por instituições católicas belgas), que não eram violentos nem aterrorizantes, mas vendiam bem mais do que os franceses…

    As leis começaram a ser convenientemente ignoradas na França após o surgimento da revista Pilote, a primeira revista em quadrinhos francesa que vendia mais do que as belgas. A censura era apenas uma arma para enfrentar a concorrência! Não duvido que na Inglaterra fosse parecido, até porque a revista em quadrinhos mais vendida no país nos anos 50, a Eagle (lida até por um jovem príncipe Charles!), tinha ela própria sido criada por um padre anglicano.

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    1. O objetivo do artigo era questionar, assim como fez Bill Gaines em seu editorial, se as pessoas envolvidas nessa campanha contra os quadrinhos não eram comunistas ou idiotas úteis usados por eles.

      Comunistas, esquerdistas, adoram quadrinhos, muitos produzem e publicam, muitos estão entre os maiores artistas. Em nenhum momento afirmei que eles não fazem isso, mas há no esquerdismo um desejo de controle, que tenta limitar expressões culturais e isso já atingiu os quadrinhos. Um dos meus objetivos era corrigir um erro frequente da historiografia dos quadrinhos de descrever Frederic Wertham como um conservador.

      Muita gente que foi prejudicada pela perseguição aos gibis dos anos 1950 era simpatizante da esquerda. Uma coisa que Gerard Jones comenta sobre Wertham é que se ele soubesse que o pessoal da EC era quase todos de esquerda, ele não perseguiria aqueles gibis.

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  2. Vc tem um blog interessante com matérias interessantes, mas seu tom preconceituoso e essa de misturar politica com hq (mesmo com com sentido) nao me agrada, nao voltarei a acessar. Mesmo assim, parabéns pela iniciativa de ser um blog diferente sobre hq.

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  3. Só vi hoje que tu voltou a ativa!

    Parabéns, já li alguns artigos e os textos estão bem legais — e se tem alguma coisa que a Internet-quadrinística brasileira precisa é de sites que não fiquem naquele biriri habitual. O tema desse ponto é um bom reflexo disso: o que eu já li de gente chamando o Wertham de conservador maluco não é fácil. Duvido que algum deles tenha lido Silêncio dos Inocentes, qualquer coisa concreta sobre a perseguição aos quadrinhos ou tenha a mínima ideia do que é ser um conservador. É tudo puro automatismo mental…

    De resto, duas coisas.

    Primeiro, vou aproveitar para fazer um jabá incidental e recomendar o meu próprio site, o New Frontiersnerd. Também coloco lá postagens mais longas [no caso, as minhas próprias, reunidas aqui: http://www.newfrontiersnerd.com.br/search/label/PARA%20OS%20FORTES%5D. Só que o meu foco são as resenhas: eu falo de gibis específicos, e não do contexto como tu faz. Mas talvez tu goste: tento escrever do jeito mais objetivo possível, descrevendo o que o gibi projeta e não o que eu projeto no gibi.

    E segundo, para o comentário não ficar tão off-topic aqui na postagem: tem um baita livro escrito pelo Bart Beatty sobre o Wertham, chamado Fredric Wertham and the Critique of Mass Culture. Beatty [ele mesmo um progressista] tenta “salvar” a imagem de Wertham, mostrando porque ele não é um Conservador e explicitando as conexões dele com a esquerda e com a escola de Frankfurt.

    Por exemplo: Wertham não era exatamente contrário aos quadrinistas/artistas [a própria esposa dele era uma pintora]… e dizia que eles eram vítimas do capitalismo, que obrigava eles a produzir aquelas histórias “malignas”. Digamos assim: a luta dele era contra a “indústria”.

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    1. Obrigado New Frontiersnerd, curto seu blog também. Lá no grupo do Caixa de Gibis do Facebook, falei de um painel que rolou esse ano na San Diego Comic Con onde alguns especialistas tentaram limpar a imagem de Wertham e a principal fonte deles é o livro que você citou, do qual eu já tinha conhecimento. O relato desse painel saiu no site Bleeding Cool.

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  4. HAUSHSHSHHSHSHSHUA…. Esquerda e liberalismo não tem nada haver uma coisa com a outra. Deixa de ser burro. Vai pesquisar e ler mais sobre política e quadrinhos. Deu pra ver que sua leitura sociológica das coisas é mais rasa que um pires. Meu deus, nunca vi tantos erros conceituais e interpretativos em um texto. Conseguiu ofender os conservadores, liberais e libertários em um mesmo texto!!! Cuidado depois quando eles vierem te cobrar. HAUSHSSHSHUA!!!!

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