Curiosidades negras

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Capitão América substituído por Falcão, um herói negro. Homem-Aranha ultimate moreninho. Perry White do cinema é Black. Heimdall é o primeiro deus nórdico afro da história dos filmes de herói. Nick Fury vira Samuel L. Jackson! Será que o politicamente correto está enegrecendo os heróis pra supostamente discutir racismo?

Hei, qual é a novidade afinal? O debate suscitado pelo Capitão América negro já poderia ser datado e nunca chega a lugar nenhum pra ter qualquer importância, mas ainda suscita muitas discussões, principalmente brigas e acusações infundadas de racismo.

Heróis se tornando negros não é coisa exatamente nova, escritores de quadrinhos já fizeram isso várias vezes. Contudo, há dois casos que lembrei, no meio de toda essa controvérsia, bem mais interessantes pra se refletir. Casos em que os personagens não foram substituídos, mas se transformaram em negros por um breve período.

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Em Punisher Vol 1 #60-62, de fevereiro de 1992, escrito por Mike Baron, o Justiceiro cai em uma armação do Rei do Crime e vai pra cadeia. Os bandidos, liderados pelo vilão Retalho, cortam a cara dele toda. Desfigurado, ele escapa, mas o Rei continua em sua cola. 

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Microchip então o põe em contato com uma ex médica cirurgiã viciada em drogas, que agora atua no submundo. Ela faz uma cirurgia plástica experimental para que o Justiceiro não seja mais reconhecido pelos capangas do Rei.  A cirurgia injeta melanina(!) na pele de Frank Castle , e o transforma em um negão. 

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Fugindo para Chicago, onde vai descolar umas armas em um esconderijo, Castle logo chama a atenção de policiais brancos, que o mandam parar o carro. Humilhado pelos homens da lei por ser negro, o Justiceiro conclui que se antes não gostava de racistas, agora, sendo negro, gosta menos ainda, reage e começa a ser espancado pelos coxinhas.

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Nesse momento, ele é salvo por Luke Cage, o herói de aluguel da Marvel.

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Percebendo que Cage tem super poderes e pode ser útil em sua missão, Castle o contrata para ajudá-lo. Porém, em Chicago não tem grana nenhuma, somente armas. Cage então propõe que sua parte pode ser paga se o Justiceiro o ajudar a se livrar de uns traficantes de crack. Assim os dois viram parceiros na luta contra o crime. No final, a médica viciada dedura Castle, os capangas do Rei retornam para capturá-lo, mas são obviamente derrotados, nesse momento, Frank Castle volta a ser branco.

Chatice Politicamente correta nos quadrinhos em 1992?

O começo dessa história parece apontar para uma denuncia do racismo da polícia, mas isso não acontece, logo o enredo se concentra na parceria de dois heróis tão distintos. Justiceiro luta contra o crime pra vingar sua família morta, já Luke Cage quer apenas o dinheiro, é um mercenário. Enquanto o primeiro é um assassino de criminosos, o segundo atua pela lei. O mais interessante é que, no início de tudo, Castle só é preso porque não quer matar policiais, mas depois que vira negro, encontra policiais racistas e leva porrada deles. Tirando isso não há nenhum indício de alguma agenda inserida nessa história.

O fato mais marcante é que ela é de longe uma das piores do Justiceiro, o roteirista Mike Baron saiu do título logo depois e esse arco figura em toda as listas de situações mais ridículas já vivenciadas por um herói.

O segundo caso é bem mais interessante, quando Lois Lane vira negra por um dia.

Em Superman’s Girlfriend Lois Lane Vol I #106, de 1970, escrito por Robert Kanigher, Lois quer entrar em um gueto de negros em Metrópolis e escrever uma matéria sobre a vida no local, mas os negros não lhe dão atenção porque ela é branca, nem mesmo uma velha cega aceita falar com ela quando percebe isso.

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Um ativista da comunidade, figura agressiva do movimento negro, do tipo que defende luta de classes, trata Lois muito mal por ela ser branca.

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Chocada com o que passou, mas sem desistir da matéria que poderia lhe garantir um prêmio Pulitzer, e acreditando que o racismo existe, mas não de sua parte, Lois decide usar, com auxílio do Superman, uma máquina cirúrgica kriptoniana, o Plastmold, para se transformar em uma negra.

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Assim Lois vive todas as dificuldades de ser negra por um dia, nem um táxi consegue pegar e enfrenta olhares indiscretos no metrô, ou será que está imaginando tudo?

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Volta ao gueto e é aceita pelas pessoas, presencia o cotidiano difícil da região e reencontra o ativista. Ele agora a trata muito bem, porque, afinal, ela agora é negra.

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Mas o ativista é baleado por traficantes de drogas e, ironicamente,  é Lois que o salva da morte, com uma transfusão de sangue.

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Discurso progressista nos quadrinhos em 1970? Vamos lá!

Essa história se chama “I am Curious (Black)” e foi escrita por Robert Kanigher, este autor é conhecido por ter passado mais de vinte anos escrevendo Mulher Maravilha e por inúmeras criações imortais na história dos quadrinhos, incluindo Sargento Rock, Canário Negro, Hera Venenosa e o Flash Barry Allen. Em sua fase no comando de Lois Lane, o gibi da namorada do Superman deixou de focar somente a obsessão com casamento e passou a discutir “problemas sociais”.

Grant Morrison cita “I am Curious (Black)” em seu livro Supergods. O título, segundo ele, seria referência ao filme sueco “I am Curious (Yellow)”, de 1967, um filme sobre questões sociais e romance. Uma típica garota esquerdinha é apaixonada por um playboy direitista (Lois Lane e Superman?). Foi considerado pornô na época, por seu forte conteúdo erótico.

Apesar da óbvia mensagem anti racismo, é interessante notar que a história apresentada aqui não tem clara simpatia pelo movimento negro, o ativista é mostrado como uma figura opressora, olhos esbugalhados, cheio de ódio, fazendo pregações e lavagem cerebral em crianças do gueto. O único verdadeiro racismo  provém dos próprios negros, que não querem falar com Lois Lane. Os bandidos que atiram no ativista são um branco e outro negro, no final, quem salva o ativista da morte são os brancos Lois e Superman.

Que essa história tem um caráter progressista é obvio, no entanto, não há um nível de proselitismo exagerado, a mensagem, no final, é humanista. Quando Lois questiona Superman se ele a desposaria mesmo se ela continuasse negra, o herói explica suas razões da mesma maneira que sempre fazia nos gibis desse título, não poderia se casar com ela para não por sua vida em risco.

Há quem diga que essa história de Lois Lane, assim como muitas do mesmo período, visavam alavancar as vendas, que andavam bem baixas. De fato, naquela época, isso acontecia, mas acreditar que tudo que se faz em quadrinhos é marketing é um pensamento deveras reducionista. Grant Morrison, progressista até a alma, é da opinião de que “I am Curious Black”  é sem graça e incômoda. Talvez ele preferisse que Lois e Superman virassem negros e fossem viver no gueto, onde o herói seria o ativista.

Se fosse produzida hoje, essa história com certeza causaria polêmica na mídia internacional e o público se dividiria entre os que aplaudiriam a trama “inclusiva” e os que iriam deplora-la por ser politicamente correta, os últimos sendo chamados de racistas. O que era pra ser inclusivo acabaria virando motivo de briga. Talvez hoje exista ainda apenas uma lição a se tirar da história de Lois Lane negra: No final, Lois já voltou a ser branca, e vai visitar o ativista no hospital. Ele a reconhece, sorri, e os dois se dão as mãos, porque luta de classes e ódio não é a solução.

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