Abrindo a Caixa #1

Mulher-Aranha de Manara

Mulher-Aranha de Manara

Não se faz mais blogs sem redes sociais, é lá que recebemos as notícias e a maior parte da interação com os leitores, eu escrevo muito por lá. Mas tudo se perde, de maneira que algumas coisas precisam ser resgatadas e guardadas aqui. Por isso tive a ideia de criar essa coluninha ocasional, pra não perder as ideias, comentários sobre notícias e outras bobagens que escrevo sobre quadrinhos.

Coloristas, assassinos de gibis

Desculpa ai os colegas que hoje trabalham pro mercado americano colorindo HQs de super-herói, mas uma coisa que eu observei outro dia foi a péssima qualidade do trabalho de colorização feito nos gibis atuais. É tanta cor terciária, tanta frieza, tanto “realismo” que estraga os desenhos. Dei uma olhada em umas edições de X-Men e não consegui nem entender o que se passava. Achei que era só um exemplo ruim, mas vi que não, olhei uma edição dos Vingadores com desenho do brasileiro Mike Deodato e não entendi nada, olhei alguns gibis da DC e percebi que, com poucas exceções, esse colorido é uma tendência.

Além de tudo ser escuro e parecer noite, o trabalho do desenhista fica enterrado naquelas inúmeras camadas de pixels, não se reconhece de pronto o traço do artista. O arte-finalista, então, além de enterrado, está morto, as hachuries perderam o sentido de existir e parecem sujeira, não há como criar textura, os coloristas estragam tudo.

Se não bastasse o visual ruim, a leitura também leva a pior. Você tem que ficar muito tempo em cada quadrinho, o que prejudica completamente o timing da narrativa. Esses coloristas obviamente não entendem isso, não percebem que cada nova tonalidade desse tipo que acrescentam ao quadro aumenta o tempo de leitura, tão deslumbrados com suas ferramentas eletrônicas esquecem que os quadrinhos contam histórias.

Se aquilo ali fosse pintura, seria o supra sumo do Kitsch, tamanho exagero faz os quadrinhos parecerem um panfletinho sujo e mal impresso. Foi o tempo da elegância e das narrativas claras e cristalinas, eles acham que estão fazendo cinema em papel, acham que imitar cartazes de filme torna os quadrinhos mais interessantes, mas HQ não é lida da mesma maneira que filme. Um pouco de estudo não faria mal.

E onde estão os editores que não veem isso?

As horríveis tirinhas da Folha

As tiras da Folha de S. Paulo são tão ruins, mas tão ruins, uma merda tão grande que pensei em escrever um artigo. Já faz tempo que tenho essa ideia, desde um dia em que deparei com uma tira em que tinha um monte de gays com bandeiras do Brasil enfiadas na bunda. Isso foi durante a copa do mundo.

Comecei a ler quadrinhos com as tiras de jornal, tinha Dick Tracy, Flash Gordon, Garfield, Calvin. Hoje nenhuma criança vai se interessar por quadrinhos com essas tiras da Folha. Os medalhões que ainda publicam lá, que antigamente tiveram peças interessantes, hoje se limitam a rabiscar tiras supostamente conceituais, incompreensíveis e sem graça, apenas delírios de sua vaidade. Eles se acham grandes artistas, não querem mais fazer piadinhas.

A pior de todas é uma tira que só tem cabeças, muito parecidas com os memes de facebook rabiscados no paint, mas com textos absolutamente nonsense e sem a mínima graça. Outras são bobageiras sexistas ao gosto de pseudointelectualóides de faculdade pública.

Rascunhei o artigo, mas depois desisti. Com certeza o jornal iria me processar, porque eu ia falar a verdade. Nunca na minha vida vi reunião de tiras tão ruins quanto essas que a Folha publica hoje em dia, aquilo não merecia ser impresso nem em papel higiênico.

O culto da capa dura

Hoje em dia todo gibi é capa dura envernizada, papel especial, impressão impecável, caríssimo, um objeto de luxo que você não pode dobrar e colocar no bolso pra ler no metrô. Você tem que colocar na estante e ficar admirando aquele objeto, você não vai ler porque senão as suas mãos vão manchar, estragar, você não pode carregar por ai porque é pesado, porque custou caro. Se chegar a ler, você não pode tomar um café, fumar um cigarro, beber uma cerveja, comer um sanduíche ao mesmo tempo, pra não sujar.

Você tem que guardar aquilo pra sempre e tomar cuidados especiais pra não amarelar, mofar ou molhar, como se sua casa fosse um museu e você o curador. Você não pode se divertir com aquilo, emprestar pros amigos, passar de mão em mão, desenhar por cima, recortar, fazer um poster. Ninguém deve mesmo saber que você tem pra não pedir pra ver.

Você não pode riscar o seu gibi, escrever seu nome, mas se ele for autografado (leia-se riscado as pressas por um artista mal humorado que não te conhece mas te faz uma dedicatória padrão nada sincera) ele vale mais. Se você tiver dinheiro, você vai até San Diego e fica horas em uma fila, paga 400 dólares pra Stan Lee riscar seu gibi (e olha que ele não criou nada, foi Jack Kirby) e sai se gabando, você tem um tesouro que é mais importante do que sua vida.

Que porra de sentido tem isso? Não é nada divertido, mas as pessoas se dedicam a essas coisas, acho que pra matar seu abismo de tédio e compensar a falta de imaginação.

O Cara

O Cara

 Ele ainda é o cara!

“As pessoas gostam de chamar os gibis de graphic novels ou arte sequencial, todo tipo de nome maluco. Graphic novel faz com que pareça pornografia. Gosto do nome gibi, porque lembra algo que você dobra e põe no bolso, gosto da puerilidade deles.”

“Um dos motivos que me faz gostar dos filmes da Marvel é que eles são divertidos. Muitos filmes de super-herói são afetados. Estava assistindo Superman e uma hora tudo que eu via era uma postura tipo “ei, eu posso voar e você não pode” Já o Capitão América, O Hulk e o Homem de Ferro são um monte de crianças malucas e confusas, assim como os leitores.”

“Não consigo assistir a um filme do Batman. Já vi alguns pedaços, mas geralmente penso que não, aquilo não é o Batman. E saio do cinema antes que o filme acabe”.

Frank Miller em entrevista para a Playboy

Simplesmente gibi

O sujeito me manda uma mensagem dizendo que gosta do meu blog porque eu defendo “quadrinhos conservadores” em contraposição aos quadrinhos infestados de esquerdismo.

WTF??? Quando eu defendi esses “quadrinhos conservadores”? Nunca defendi nada disso, eu defendi foi o fim da patrulha que hoje a esquerda faz nos quadrinhos e a militância política. Defendi a liberdade de expressão, mas nunca achei que deveria se criar algum tipo de quadrinho conservador pra disputar com os esquerdistas. Isso parece ideia de bocó. Se vier a existir e for bom, tudo bem, mas não espero por isso.

Nunca quis sequer associar esse blog a política, mas aconteceu. Na verdade eu queria, no início, fazer relações entre quadrinhos e literatura, quadrinhos e ocultismo, história, filosofia, religião, tudo, menos política. Mas o blog seguiu seu caminho, foi ditando os rumos pra mim, ganhou vida própria e eu o segui, eu obedeci, porque a tendência hoje é colocar política nas HQs, então eu vim a discutir isso, mas nunca foi meu objetivo.

Tem gente que não entende o que eu escrevo, defendo os quadrinhos como fantasia, apenas escapismo e imaginação. O que não gosto nos quadrinhos de hoje é o excesso de presunção artística e realismo, essa coisa de querer se fazer “arte sequencial” ou “nona arte” em vez de gibi. Simplesmente gibi.

Acho que se não levarmos os quadrinhos tão a sério e eles voltarem a ser gibi, não haverá mais militância política de nenhuma forma, e eles serão muito melhores.

Baratinho

Baratinho

Essa coisa de gibis caros me lembrou…

No Rio de Janeiro, na época que estive lá, havia um mercado de livros bem legal, onde você andava tinha uma banca de livros ou uma pequena livraria e tinha até uma grande feira itinerante de livros que a cada mês ficava em um praça diferente. Tudo isso com preços bem generosos.

Um dia dei de cara com um monte de bancas no centro, onde tinha liquidação de livros e gibis e achei O Edifício de Will Eisner, em ótimo estado de conservação, por apenas um Real!

Meses depois eu tava em São Paulo e ia passando ali próximo a Praça da República, indo em direção a rua Marquês de Itu pra comprar material de arte, naquela época o viadão do exprefeito Kassab ainda não tinha mandado arrancar todas as bancas de jornal da cidade e tinhas muitas que só vendiam gibi. Encontrei uma que nunca tinha visto e parei pra ver o que tinha de bom. Vi o mesmo Edifício de Eisner pendurado lá, um adesivo de preço trazia R$ 17 bem grande, dai lembrei que tinha comprado a apenas um real. Mas achei o preço justo.

Comentei com um senhor que estava do lado “ei eu comprei esse mesmo gibi por um real no Rio, aqui ta custando dezessete” Ele riu e respondeu “não é dezessete, são três parcelas de dezessete”.

Tsk, Tsk, Tsk

Uma dica do Caixa de Gibis virou matéria de revista e não recebemos crédito, quando lembrei o autor da matéria, ele desconversou, disse que eu não tinha sido o único a dar a dica a ele, mas que sua opinião estava “registrada pra toda eternidade na revista”. Depois apagou tudo do Facebook.

O Brasil é cheio de gente assim, por isso que não seguimos pra lugar nenhum. Perdeu meu respeito.

*A maior parte das notinhas são resgatadas do facebook e editadas.

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6 comentários

  1. “REGISTRADA PARA TODA ETERNIDADE NA REVISTA” ? solicito obséquio de enviar ao tal moçoilo a lembrança que uma revista é um periodico, Como os jornais, apresenta noticias e atualidades, e como tal cabe recordas as frases do argentino JORGE LUIZ BORGES –

    Jorge Luiz Borges: “Creio que os Jornais fazem-se para o ESQUECIMENTO e os Livros são feitos para a MEMÓRIA”.

    “O jornalista escreve para o esquecimento, quando seu sonho seria escrever para a memória e o tempo”.

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  2. Há um tempo atrás li aquele livro Eisner/Miller. É um bom livro, dá pra sentir o amor dos dois pelos quadrinhos e diferenciar a postura otimista e tranquila do Eisner e a energia e revolta do Miller.

    O que você disse sobre os coloristas me lembrou que em determinado momento o Eisner diz que as cores nos quadrinhos são como uma orquestra sinfônica tocando sobre a voz da Édith Piaf, só atrapalham.

    Enfim, ótimo texto.

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