Um mundo só de quadrinhos?

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Ao rever Fahrenheit 451, filme de François Truffaut de 1966, adaptado da novela homônima de Ray Bradbury, notei uma cena muito curiosa. No mundo onde os livros são proibidos e a comunicação se dá através de imagens, com o predomínio da televisão, as pessoas leem jornais em forma de quadrinhos! Da leitura do livro original, não lembrei de qualquer citação a gibis, presume-se que foi Truffaut quem incluiu esse detalhe quando da adaptação cinematográfica. Mas vamos ser sinceros, este objeto de cena tem todo sentido de existir e diz muito sobre uma sociedade distópica onde os livros não seriam mais lidos por qualquer razão.

Óbvio que não podemos conjecturar que há nisso qualquer crítica aos quadrinhos, até mesmo porque sabemos que tanto Bradbury quanto Truffaut eram apreciadores dos gibis. O primeiro chegou a ter muitos de seus contos adaptados pelo pessoal da EC Comics, ainda nos anos 1950, sem permissão no início, é verdade, mas negociou cordialmente uma maneira de ver suas histórias curtas no formato de HQ. A própria novela Fahrenheit 451 ele permitiu que fosse adaptada para quadrinhos em 2009, trabalho feito por Tim Hamilton.

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O que chama a atenção nos quadrinhos lidos pelo personagem Montag é a sua semelhança com algumas das mais aclamadas graphic novels contemporâneas. As imagens aparentemente sem nenhuma relação sequencial ou linearidade narrativa, estética despojada, colorido pastel e um certo vanguardismo na disposição dos quadros, um trabalho gráfico formalista, remete a Chris Ware, Dan Clowes, Art Spiegelman, David Mazzucchelli, grandes nomes das graphic novels atuais. Teria sido o que Truffaut, ou sua equipe de arte, conseguiu imaginar a partir dos gibis europeus mais ousados dos anos 1960. Um gibi totalmente gráfico, sem palavras, para substituir o hábito da leitura.

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 Lógico que não haverá um mundo onde os livros sejam proibidos e queimados, contudo pode haver um mundo onde eles não sejam assim tão apreciados e o costume de leitura e escrita se perca na transmutação para novas formas de expressão, menos verbais e mais visuais. Recentemente li um artigo no New York Times onde Charles Mcgrath dizia que as graphic novels substituiriam os romances como nova forma de literatura, isto não aconteceria em nossa geração, mas seria certo.

“You can’t pinpoint it exactly, but there was a moment when people more or less stopped reading poetry and turned instead to novels, which just a few generations earlier had been considered entertainment suitable only for idle ladies of uncertain morals. The change had surely taken hold by the heyday of Dickens and Tennyson, which was the last time a poet and a novelist went head to head on the best-seller list. Someday the novel, too, will go into decline — if it hasn’t already — and will become, like poetry, a genre treasured and created by just a relative few. This won’t happen in our lifetime, but it’s not too soon to wonder what the next new thing, the new literary form, might be.It might be comic books. Seriously. Comic books are what novels used to be — an accessible, vernacular form with mass appeal — and if the highbrows are right, they’re a form perfectly suited to our dumbed-down culture and collective attention deficit.”

O texto é de dez anos atrás, até agora o vaticínio não se concretizou, porém, devo dizer algo que pode parecer leviano: Não acredito porque não concordo. Se concordasse, acreditaria.

As transformações do conceito que temos de quadrinhos nos últimos anos indicam esse caminho. Cada vez mais os quadrinhos são tidos como uma forma de literatura e hoje as grandes produções em literatura propriamente dita se destinam apenas a gerar adaptações cinematográficas milionárias, o restante, a literatura enquanto arte, não é lida senão por intelectuais, escritores e críticos, uma velha geração que não se adaptou a era da imagem e que em breve vai se extinguir. O que a grande massa lê em termos de livros são os roteiros de séries e filmes em forma de enormes volumes, tipo os de George R. R. Martin. A falência da literatura é acompanhada pelo crescimento do apreço pelo formato graphic novel entre uma nova geração de intelectuais, escritores (agora quadrinistas) e críticos. A produção de graphic novels cresce e ganha os prêmios antes exclusivamente literários.

Nas produções atuais, o caminho seguido pelas graphic novels talvez não seja o da total ausência de palavras, como o mostrado na peça do filme de Truffaut, mas a sua transformação em signos visuais, o que explica a obsessão infantil com tipografia comum nesses quadrinhos. A leitura não seria substituída de maneira simplória por “arte sequencial” (ou asequencial), pelo contrário, teríamos mais uma espécie de subliteratura visual ou telenovelas gráficas, onde toda descrição e sugestão de passagem do tempo seria mostrada em desenhos e os poucos diálogos em palavras desenhadas em balões (mais uma vez, obsessão infantil com tipografia), um tipo de roteiro em story board para os filmes vindouros. Seria mais ou menos como os memes da internet com uma pegada sofisticada, de maneira a ficar tudo bem mais sugestivo para sua adaptação cinematográfica do que um calhamaço de mil páginas sem figuras, atendendo aos anseios da geração da imagem.

Não concordo, por isso não acredito. Não consigo acreditar na aproximação do declínio da literatura em prosa porque não concordo com ele. Meu amor pelos livros talvez seja coisa do passado, o que me faz negar o futuro. Talvez por isso eu odeio tanto a afetação em torno de graphic novels enquanto literatura.

A apreciação da prosa, onde posso imaginar tudo, ouvir, ver e sentir a passagem do tempo da maneira que mais me apraz talvez seja capacidade que não precisa ou não deve ser desenvolvida pelas novas gerações, é uma habilidade desnecessária e até prejudicial as suas novas relações com o tempo-espaço, suas interações humanas e necessidades materiais. As artes narrativas deverão ser visuais, até a letra deverá ser desenhada de forma a se tornar mais visual, algo que as graphic novels já prometem. Mas nada disso me agrada, não me parece bom para a literatura nem para os quadrinhos, parece mais um declínio de ambos. Nem mesmo as adaptações de clássicos da literatura em forma de quadrinhos me agradam, acho que não podemos correr o risco dos livros serem substituídos no imaginário das novas gerações, jamais.

Poderão as graphic novels manter a qualidade literária da prosa? Haverá algum dia graphic novels tão importantes quanto um Crime e Castigo ou uma Divina Comédia? Acredito que não. Pra mim o processo que vemos se desenrolar parece apontar para uma degradação da sensibilidade humana, ou uma espécie de ditadura da ignorância. Abandonar os livros escritos e passar a desenhá-los parece muito mais perigoso do que queimá-los. Não acredito que seguiríamos o caminho tão estúpido de um mundo só de quadrinhos. Não acredito porque não concordo.

 

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2 comentários

  1. Tudo evolui e evolução não quer dizer melhor, mas sim mais adaptado. Talvez sim, quadrinhos sejam mais adaptados à nossa vida cotidiana e imediatista. Talvez a “arte” de imaginar e abstrair não serão mais necessários p/ nossos filhos e netos, tudo já estará pronto e resolvido. Talvez nem os quadrinhos sejam o melhor p/ as futuras gerações, já hoje em dia, tudo é vídeo, manuais de instruções estão se tornando audiovisuais, tem uma escola na Inglaterra (eu acho) que nem papel e caneta os alunos utilizam mais, tudo no tablet, e por aí vai. O mundo precisa girar.

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