Não chore pelo Superman!

superman-jim-lee

 

SUPER HOMEM, MEU VELHO, É AQUI QUE A GENTE SE SEPARA

Ainda não tinha lido essa “carta aberta ao Superman”, onde Paulo Ramos, jornalista especializado em quadrinhos, chora a qualidade das atuais histórias do seu herói preferido e acusa o cinema de ser o culpado. Data de quase um ano atrás, quando eu estava parado com o blog. Eu poderia ignorar, se fosse mais um lamento de fanboy, mas o texto vem de um experiente jornalista, formador de opinião, então resolvi digitar algumas linhas a respeito.

Pois bem, vamos lá, Ramos afirma que o cinema estaria ditando as regras das atuais histórias em quadrinhos de super-heróis e isso teria resultado em seu decréscimo de qualidade. Em parte é certo, óbvio até, mas em parte isso não faz nenhum sentido.

Por que é óbvio?

Ramos alega ser leitor de Superman há 30 anos. Ora, sabemos que Superman teve uma série de filmes de grande sucesso, o primeiro grande sucesso dos super-heróis no cinema, iniciada em 1978, e foram aqueles filmes que provavelmente chamaram a atenção do honorável jornalista para o personagem e o fez se tornar um fã. Foi também a partir deste primeiro sucesso nos cinemas que as grandes editoras de quadrinhos começaram a tentar levar seus personagens para a tela com mais propriedade. Entre erros e acertos, as adaptações engrenaram a partir do fim dos anos 1990, com os filmes de Blade e X-Men, quando se estabeleceu uma relação mais estruturada entre os estúdios e as empresas que controlam as editoras. Analisando historicamente, há influências do cinema nos quadrinhos pelo menos desde 1978, isso é óbvio, e inclui todo o período que o jornalista diz ter colecionado os gibis do Superman. Mesmo com influência inevitável e crescente do cinema, várias boas histórias do personagem foram publicadas neste período no formato gibi. Existe hoje, sim, alguma influência dos filmes em quase todos os gibis de heróis: uniformes e ambientes menos coloridos, reboots e simplificações. Essas tentativas de cruzar as vendas são previsíveis, óbvias, mas não foi isso que causou a queda na qualidade das histórias.

Por que a reclamação não faz sentido?

Falta a Ramos perceber que o problema dos quadrinhos atuais não é o cinema. Como eu disse, este já se faz presente desde antes de ele começar a ler os gibis, trinta anos atrás, e boas histórias continuaram a ser produzidas, algumas com relação direta com o cinema. Só pra citar dois exemplos: Os Supremos, completamente influenciado pelo cinema, ótima história, 2002. All-Star Superman, 2006, narrativa bem cinematográfica, ótima história.

O verdadeiro problema hoje está na gestão das editoras, dominadas por setores politizados e sequiosos de status, estes voltaram os quadrinhos a um público de universitários, um público prestigioso, e as histórias ganharam um conteúdo pseudo-adulto, pautado em digressões politicamente corretas. Um dia é o Homem- Aranha neguinho, outro dia é o Thor mulher, este ou aquele personagem gay, islâmico, travesti. São histórias contra racismo, homofobia, bullying, contra a destruição da natureza, o capitalismo e tudo que a fantasia de um público universitário e intelectualizado pode almejar como digno de compor as histórias de super-heróis.

Essas histórias já existiam também desde muito antes, Denny Oneil, Steve Gerber produziram um monte delas, mas nunca pautaram as produções como hoje. Este público já esteve ligado em heróis na década de 1960, Era primordial da Marvel, quando Stan Lee dava palestras em faculdades e os campi viviam cheios de fãs de Homem-Aranha, porém naquela época ainda havia um conceito de quadrinhos enquanto arte de entretenimento popular, até infantil, e isso restringiu um bocado as experimentações. Hoje em dia o conceito mudou, espera-se que os quadrinhos justifiquem um suposto status de arte, coisa adulta e intelectual, algo que naturalmente não pode ter. Quadrinho é entretenimento e ponto, existe pra divertir, não pra fazer sociologia, ganhar prêmios de direitos humanos ou de literatura.

Via de regra, os super-heróis resistem bem no cinema porque, além da atual boa gestão da estrutura dos estúdios, as produções se pautam quase que exclusivamente no entretenimento escapista, não tem pretensões artísticas ou políticas. É por isso que filmes como os da Marvel tem funcionado, eles são diversão descompromissada, coisa que os editores de quadrinhos perderam o jeito de fazer. As histórias do Superman citadas por Ramos tiveram a pretensão de mostrar o personagem como “combatente das injustiças sociais”, atitudes desse tipo dominaram o cenário de quadrinhos nos últimos anos. Esse é o grande problema dos gibis atualmente e quando se tenta fazer algo diferente, o público reclama e pressiona. Um outro grande problema, o público.

Ao contrário do que o jornalista afirma, os quadrinhos de hoje não estão testando ideias para o cinema, pelo menos ainda não, ainda bem. Os filmes tem se baseado mais em histórias de 40, 30 ou 20 anos atrás. Tenho absoluta certeza de que se o cinema se baseasse em heróis gays, islâmicos, travestis, etc, protagonizando histórias sobre aborto, homofobia, racismo, etc, típicas dos gibis de hoje, os filmes seriam um completo fracasso! E se o cinema ditasse as regras dos quadrinhos e acabasse com essa palhaçada politicamente correta que hoje impera nos gibis, impondo o modelo que tem seguido (pelo menos o modelo Marvel), até mesmo eu voltaria a ler e colecionar!

Paulo Ramos está completamente errado em seu lamento de fanboy jornalista especializado, não adianta chorar, saudosismo não resolve nada e é uma atitude infantil, os super-heróis continuarão a existir muito bem nos filmes e agora há os seriados de TV, se eles não seguirem o modelo dos gibis, ficarão muito bem. Quem não gostar, vá ler um livro e para de encher o saco.

Anúncios

17 comentários

  1. A criançada que hoje em dia se veste e brinca de super herói faz isso por causa da tv e principalmente do cinema.

    Então para atrair público, o gibi estão cada vez mais submissos ao cinema. Para desgosto do público mais antigo que gostava de cuecas por cima da calça.

    Só que o problema vai além do fim dos uniformes berrantes e da adoção do tom sóbrio cinematográfico. O problema sempre foi e sempre será a qualidade das histórias. E pelo que o Paulo Ramos deu a entender, elas estão ladeira abaixo…

    A fidelidade aos nossos heróis sempre nos fez superar fases ruins. Mas quando elas vem em conjunto com um personagem descaracterizado que não reconhecemos mais, não posso condenar um adeus.

    Curtir

    1. Realmente você tem saudade dos uniformes espalhafatosos?A unica coisa que eu gostei nos quadrinho irem pro cinema é:1 Ver aquela historia massa da quele herói caindo na porrada com o vilão em 3d com efeitos especiais e taus e 2 o fim das cuecas por cima da calça.

      Curtir

      1. Já viu os uniformes coladinhos segundo Alex Ross? Acredito que ele usa modelos fotográficos para criar suas referências. Cinema e HQ são mídias diferentes, portanto “não confunda cinta com funda”

        Curtir

  2. Muito bem, o Brasil caminha para uma recessão “nunca antes vista na história desse país”, assim como diria o ex-presidente Lula, as leis seguem beneficiando bandidos e a grande mídia a cada dia que passa vai crucificando a polícia e acolhendo a escória da sociedade, que são os marginais, bandidos, assaltantes, estupradores e toda corja relacionada. No horário de folga, um policial, em passeio com sua família foi surpreendido por dois marginais que anunciaram o assalto, o policial reagiu e acabou disferindo tiros nos indivíduos que culminaram na morte dos dois bandidos. Pois bem, numa sociedade que presa pela ordem e o bem esse policial seria honrado até mesmo com uma medalha de bravura e a mídia iria no mínimo elogiar o ato do policial, mas quem disse que o Brasil é esse país?

    Curtir

  3. á vem mais um monumento de estrume e desinformação esquerdista…

    É cômico… 30 anos depois e eles com as mesmas mentiras e falácias de sempre.

    Vamos ver o que o herói dos oprimidos aí vai excretar por aqui, prometo rebater.

    Curtir

  4. Fora o fato que todo esquerdista bom de vida passa férias nos EUA e na Europa. Cuba? Coreia do Norte? Rússia? China?
    Como é que eu posso dar moral pra pessoas que gostam de videogames, que usam computadores com Windows, que assistem séries e filmes americanos. São fãs de mangas e animes — produto cultural produzido em países capitalista.

    Esquerdista é a mentira encarnada.

    Curtir

  5. Texto muito bom, trás luz a um tema em que as discussões nem sequer tem corpo ou forma.

    Concordo que as HQs estão adotando uma temática política. Os heróis estão cada vez mais militarizados. Os vilões, cada vez mais objetivos, com alguns sendo até e mesmo tangíveis o suficiente para serem vistos como pessoas de verdade.

    Porém a causa disso pode residir em alguns fatores mais objetivos.

    Quando eu era pequeno havia algumas discussões interessantes:

    1 – a motivação dos personagens era considerada incongruente, as motivações não convenciam o suficiente o leitor a ponto de acreditar que, por exemplo, um alienígena moribundo dá um anel a um humano lhe conferindo poderes e lhe recrutando para uma força policial cósmica e esse humano simplesmente aceita, não parece razoável, qualquer um perguntaria algo, acharia que é pegadinha ou simplesmente que está biruta… Daí surgem rebots bem elaborado com origens mais enfase na origem dramatica das personagens.

    2 – um homem descobre um artefato mistico que lhe confere a habilidade de voar, pronto, temos mais um super herói imbatível só porque pode voar. A questão aqui é: quais aptidões fazem um arqueólogo tornar se um super herói, um fuzileiro de elite tem treinamento, faz sentido que, após um trauma, ele pegue em armas e use suas aptidões na caça de criminosos, mas um arqueólogo alado? Daí surge a necessidade criar heróis cada vez mais preparados, mais afeitos a disciplina castrense, mais táticos (por isso as cores escureceram e as cuecas foram parar do lado de dentro da calça).

    3 – um herói bem elaborado, com uma motivação convincente não pode simplesmente patrulhar ruas, ele precisa de um norte orientador. Um alienígena conquistador não vem até a terra duas vezes por mês para conquistar o planeta, então os argumentos políticos fazem o papel de preencher a vida útil do herói entre uma invasão alienígena e outra, os argumentos políticos admitem uma grande flexibilização alem de ter uma variedade de temas inumeráveis.

    O que quis dizer é que as HQs eram inocentes, de certa maneira ate infantis, porem cobravasse mais realismo nas histórias, mais atuação do heróis, mais inteligencia dos vilões.

    Esses leitores cresceram, as HQs amadureceram para acompanhar seus leitores e mudaram sua forma, sua abordagem e seu mote.

    Costumo pensar que movimentos artísticos são reflexos da conduta, dos anseios e do momento histórico de uma cultura, porém, a arte vem cronologicamente depois, portanto esse formato de HQ é herança da geração dos anos 90, mas logo muda novamente para acompanhar o movimento sociocultural.

    Abraço!

    Curtir

  6. Não vai ter mais postagens? Eu realmente gosto do seu blog, não concordo com tudo que vc escreve mas vc tbm não é obrigado a escrever o que as pessoas querem. Seus textos são ótimos, vc deveria estar em algum site maior, tipo Omelete, sei lá !

    Vc pode até achar que sou algum tipo de perturbado por gostar do que vc escreve, mas o motivo que os seus textos me atraem é porque vc não se restringe e não fala da mesma coisa que os outro falam. Seus textos são como devaneios sobre o universo das HQs. Continue fazendo o que faz, as pessoas precisam de um tapa na cara de vez em quando = D

    Curtir

  7. A Marvel faz sim discurso ideológico sim nos seus filmes só que eles são mais sutis, tipo o Homem de Ferro 3 que prega que os terroristas são uma inversão dos americanos para controlar a população ou a série Agent Carter que prega o feminismo e etc.

    Curtir

  8. Qual é o problema da historia ser mais séria e sombria as vezes as pessoas se divertem com historias tensas cheias de reviravoltas e com violência se não filmes como Exorcista ou Seven – Os Sete Crimes Capitais não fariam sucesso, gosto dos filmes da DC sim porque são tensos e lembre-se historias fodas com essas características tem nos quadrinhos, como: Os Supremos, Demolidor – A Queda de Murdock, Batman – O Cavaleiro das Trevas e etc…

    Curtir

  9. Eu concordo com você,hoje em dia tem muitas hqs pseudo adultas e feito por moralistas chatos.Mais eu acho que falar que HQ é só entretenimento é pouco.Quer dizer,não estou falando que as hqs devem ter noções de sociologias ou coisa do tipo.Mais possui hqs adultos que são muito bons,vide Alan Moore,Frank Miller e sua satira etc.Assim como Neil Gayman e Sandman.São hqs adultos,retrata o mundo,etc.Mais seria que o problema real é que tem muitos “Artistas” que tentam imitar ele,ou então tenham artistas que são apenas copias baratas do autores ou pior:são pseudo intelectuais chatos e marxistas que estraga a oportunidade de fazer uma boa hq de arte?

    Curtir

Deixe seu comentário, sem ofensas, por favor.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s