A última geração

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Quando eu tinha doze anos, era proibido de ler quadrinhos. Se meus pais ou meus irmãos me vissem com eles, a bronca era feia. Tinha que subir no telhado de casa pra ler escondido. Gibis eram uma praga que deixava você maluco. Sofri muita perseguição na escola, na vizinhança e na igreja por ser leitor de gibis. Felizmente essa época passou.

A nossa será provavelmente a última geração que teve de se esconder pra ler seus gibis. Em breve todos poderão ler sem ter vergonha ou medo de perseguições, inclusive nas escolas, onde já se usam gibis.  Nós seremos também os últimos a chamá-los assim, pois hoje eles são considerados “arte sequencial” ou “nona arte”. Os antigos gibis que nós colocávamos dobrados no bolso pra ler no recreio da escola, escondidos em lugares ermos ou no banheiro, não vão durar muito tempo, serão substituídos pelos encadernados de capa dura, caríssimos e luxuosos.

Quadrinhos como diversão irresponsável? Jamais! Nós seremos os últimos a vê-los dessa maneira. Os produtos da Nona Arte serão levados a sério por pesquisadores cultos e estudados detidamente. Cada traço, cada quadrinho, cada espaço vazio, letra ou mancha passará pelo crivo dos especialistas semióticos capacitados das universidades e as editoras só poderão publicar o que tiver relevância cultural.

Conteúdo preconceituoso ou sexista? Nunca! Nada de desrespeito as minorias, etnias, credos, estilos de vida. Nunca mais bullyng contra povos e culturas. A Arte Sequencial vai respeitar a diversidade, os negros, as mulheres, os transgêneros, os animais com espaço em suas páginas para a representatividade de todos! Chega de padrões opressores, o que teremos será a inclusão. Nossa geração será a última a presenciar os velhos preconceitos retrógrados que impediam que as HQs fossem valorizadas! A Nona Arte será humana e universal.

Nossa geração será a última a ver Conan massacrando pictos desfavorecidos, carregando mulheres nos ombros, dando socos em camelos e matando leões em extinção. A última geração.

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2 comentários

  1. Mauro, a ‘tchurminha’ agora vai ficar histérica de vez, algo que você vive dizendo aqui sendo endossado por duas feras:
    Walter Simonson: “Para mim, os quadrinhos mainstream… quadrinhos são uma arte de jogar fora. Eles são feitos para serem lidos e jogados fora. Não tem mais pretensão que isso. Não deveria ter. O que não significa dizer que a forma não pode carregar mais peso do que isso.”
    Frank Miller: “E o que nós estamos dizendo é que você pode gostar muito disso, mas não deve tratá-lo como algo que não é.”

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  2. Virei rato de sebo… Não dá mais. Matei super-heróis da minha vida. Pensava que os gaysistas eram chatos. Que nada. Chatas são as feministas. Chatos são os queer! A única solução é um grupo de ranzinzas reaças de reunir e criar algo novo e se vierem encher o saco, mandarem um foda-se. Depois que “protagonismo” e “empoderamento” viraram qualquer coisa fútil, eu fujo as léguas quando leio um texto com uma bostança dessas. A propósito, gostaria de sugerir dois filmes que me dão esperança no cinema: Pawn Shop Chronicles de Wayne Kramer e Terapia de Risco, de Steven Soderbergh. Pawn Shop é muito foda. A crítica deu uma gelada nele, mas é uma série de contos fodástica. Até Brendan Fraser trabalha bem, nele!

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