Abrindo a Caixa #4

gibi

Gibi

Poucas pessoas já devem ter parado pra pensar que no Brasil temos palavras únicas e belíssimas. Nosso jeito de falar o português é incomparável.

As palavras Gibi e Quadrinho, por exemplo. Não me consta que sejam usados termos semelhantes em nenhum outro país.

Em italiano os quadrinhos são chamados de Fumetti; na França eles são Bande Dessinée; em Portugal, Banda Desenhada; nos Estados Unidos chamam-se Comics; Na Espanha as revistas são chamadas de Tebeos; No Japão são mangás, os desenhos irresponsáveis. Em outros países latinos são chamados de Historietas.

Mas nenhum termo tem o encanto do brasileiro Quadrinho para designar o gênero e Gibi para nomear a revista.

Gibi significava moleque ou garoto no sul do país, hoje ninguém mais o usa dessa maneira, significando simplesmente revista em quadrinhos.

Não troco esses termos por “arte sequencial”, “nona arte’ ou “graphic novel”. Pra mim eles resumem a essência do que designam de forma única e magnífica.

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Arte e artista

Artistas não são modelo de comportamento. Sempre digo que admiro arte, não artistas.

Caravaggio era brigão e assassino; Rimbaud, um jovem sodomita bagunceiro; Poe, alcoolatra e viciado em jogo; Da Vinci era invejoso; Crumb é um psicótico possesso; Alan Moore é um drogadito macumbeiro que traficava na adolescência; Burroughs era pervertido; Lovecraft era racista; Inúmeros quadrinistas são da esquerda chique, comunistas, petistas.

Nenhum artista pode ser tomado como exemplo de comportamento. Devemos tomar suas obras e apreciá-las, apenas isso. E se tiver ali algo que venha a nos entreter ou enlevar o espírito, já é o suficiente.

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Você sabe o que é Conventional wisdom?

É um conjunto de ideias ou crenças geralmente aceitas como verdadeiras pelo público ou por especialistas em um assunto.

Nos quadrinhos existem várias delas.

Exemplos:

– Will Eisner criou a Graphic Novel

– Fredric Wertham era um conservador

– A perseguição aos quadrinhos tinha a ver com o macarthismo

– Stan Lee foi o criador do Universo Marvel

– Batman criado por Bob Kane

– Superman foi criado pra ser um herói de esquerda

– Hergé era nazista

– Quadrinhos brasileiros não desenvolveram um mercado por culpa das editoras que compram material estrangeiro mais barato

– Oesterheld foi sequestrado e desapareceu porque fez uma biografia do Che

– Quadrinhos de heróis são machistas

É só questionar essas afirmações que os leitores e alguns pesquisadores dão piti. Esse é o chamado senso comum.

Continuando meu post anterior, deixa eu explicar como surge uma Conventional wisdom:

Elas partem dos especialistas que buscam explicar de forma simples e conveniente os fenômenos complexos que demandariam muito tempo e trabalho pra serem devidamente compreendidos. Depois essas explicações simplórias e convenientes passam aos jornalistas, que as popularizam.

Por exemplo “Stan Lee criou o universo Marvel”. Muito fácil dizer isso, com toda autopromoção sedutora que Lee fez a custa do trabalho de Jack Kirby. Mas dai aparece a mulher de Kirby e convence ele a falar que não foi Lee, mas ele que criou a maioria das coisas. Quem vai pesquisar isso? Quem vai pegar depoimentos, investigar os originais, comparar, analisar? Isso dá muito trabalho e é antipático para o público de quadrinhos que tem tendência ao fanatismo e já é fanático pela imagem que Lee criou de si mesmo. É mais fácil aderir ao Conventional wisdom.

A mesma coisa vale para todos os tópicos, porém com um agravante para os tópicos ideológicos. Neles o sujeito tende a propagar a verdade conveniente com sua ideologia. Por exemplo:

“Fredric Wertham era um conservador”. Primeiro é muito fácil dizer isso, visto que os conservadores são mesmo moralistas e a perseguição aos quadrinhos dos tempos de Wertham foi moralista, logo, foram os conservadores, ele na chefia, que perseguiram os quadrinhos.

Mas não se leva em consideração a biografia de Wertham, os elementos progressistas da sua crítica aos quadrinhos, e o fato de que ele estava muito mais preocupado com o social. Também não se leva em consideração que na época dele, os esquerdistas também eram moralistas. Não se leva em consideração que em vários outros países a perseguição aos quadrinhos também ocorreu e partiu de esquerdistas que visavam combater a influência americana. Mas quem vai pesquisar questão tão complexa? Quem vai ler os livros de Wertham, sua biografia, compreender seu pensamento? Não é muito mais fácil aderir ao Conventional wisdom em vez de ser antipático? Isso sem falar que a maioria dos jornalistas de quadrinhos é de esquerda e é muito mais conveniente pra eles pintar a figura de Wertham como o demônio conservador que odiava quadrinhos.

Entenderam agora como algumas concepções sobre a história dos quadrinhos que temos são influenciadas pela Conventional wisdom?

literatura

Por que não a literatura?

Começo a perceber uma coisa hoje, as pessoas mais educadas (e o brasileiro está mais educado no sentido acadêmico), não sabem ler quadrinhos e simplesmente se divertir como as pessoas sem educação formal sabem.

Por isso eles querem exigir representações inclusivas de minorias, status de arte e toda uma série de bobagens que estragam o divertimento. Coisas que eles aprenderam nas universidades.

Então por que essas pessoas leem quadrinhos, sendo que gibis são uma arte popular anárquica e subversiva?

Porque eles são incapazes de buscar a literatura séria.

Essas faculdades venderam diplomas pra um monte de bocós, e hoje, eles com seus canudos de ciências sociais, acham que encontraram a resposta pra todos os problemas da vida. Infelizmente, alguns desses mandarins cabotinos se voltaram para os quadrinhos, porque não tem capacidade pra coisa mais complexa.

Tá na hora desse povo se mancar, se são tão sábios, quero ver encararem a literatura de verdade e deixarem os gibis em paz.

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A exposição de 1951

Sabe quando começa a decadência dos quadrinhos brasileiros?

Naquela exposição didática de 1951, quando um sindicato de desenhistas com tendências esquerdistas tentou mostrar pro público o que era o bom quadrinho, desejando censurar o material estrangeiro e garantir reserva de mercado através de lei.

Foi ai que se criou a noção de vira lata que o quadrinho brasileiro tem.

Não se busca fazer dinheiro, busca-se fazer arte, de preferência, a custa do governo. Não se busca trabalhar e desenvolver o mercado, mas almeja-se o coitadismo como fim.

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A turba enfurecida

Depois da imensa repercussão do meu post sobre os 13 piores gibis de todos os tempos, percebi o quanto existe de intolerância no meio do fandom de quadrinhos.

Criou-se uma espécie de senso comum, todo mundo tem que pensar igual. Quem não segue a cartilha é agredido. Meu texto teve quase 12 mil visitas, 1400 compartilhamentos, nas redes sociais foram centenas de comentários. No blog foram uns 80, mas tive de rejeitar uma boa parte porque não passavam de ofensas e ameaças.

Já tinha passado por outras polêmicas, como quando escrevi “A Derrota dos Super-heróis”, que teve repercussão até no Bleeding Cool. Daquela vez recebi muitas ofensas também, mas era uma questão muito mais delicada pois envolvia uma minoria.

Dessa vez não tinha nenhuma minoria, apenas falei de gibis que não gosto, fiz uma crítica bem prosaica deles, afinal, era uma lista de blog. Por que uma reação tão agressiva por parte de pessoas que se consideram sofisticados, apreciadores da “nona arte”, pessoas todas, quase sem exceção, de nível universitário, muitos deles professores?
Onde está a sofisticação dos apreciadores da “arte sequencial” que me deixaram comentários com ofensas? Dos que usaram fakes reconhecíveis pelo IP pra não revelar sua identidade? Por que odiar quem pensa diferente? Onde está a educação desse povo?

Os melhores comentários que recebi foram das pessoas simples, que não estão ai pra esse papo furado de “nona arte”, são pessoas que simplesmente leem gibis, não tem afetação de artista nem de intelectual.

Parabéns e obrigado. Vou continuar.

A tarefa de escrever

Escrever é a tarefa mais difícil do mundo, a mais difícil de todas. Ser médico, advogado, programador, é muito fácil, é só estudar. Escrever é difícil e tarefa pra poucos, é necessário talento e muita vivência, coisa rara hoje. Das gerações nascidas a partir de 2000 sairão pouquíssimos escritores bons, talvez nenhum.

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4 comentários

  1. Eu estava discutindo isso comigo mesmo de que nos quadrinhos hoje em dia não existe mais espaço para quem pense diferente, muitos falam em diversidade de personagens e ideias mas se alguém que tenha uma visão conservadora ou de direita logo é censurado ou perseguido pelos SJW e é rotulado pelo resto da vida não importa as coisas boas que o artista tenha feito para os quadrinhos vai ser sempre acusado de ser fascista ou machista n a internet.

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  2. Antigamente um quadrinho ficava famoso pela qualidade da sua historia que ganhava popularidade pelo boca a boca dos leitores, mas hoje em dia apelam mais para a polemica barata para vendar do que fazer uma boa historia em si.

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  3. Lembro-me de ler no Caixa antigo, num artigo sobre sugestões de blogs, que o Judão e o MDM eram sites anárquicos, cheios de zoeira e mulheres nuas. Hoje, embora o MDM ainda mostre alguma beldade vez ou outra, adentrou o ‘political correctness’. Já o Judão descambou de vez pra moda social justice sucker, tenho que tomar Engov se por acaso me bate a ideia (de jerico) de entrar lá.

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