David Lasky e o embuste nos quadrinhos contemporâneos

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A arte moderna, baseada em novas teorias estéticas, filosóficas e da comunicação, trouxe inúmeras novas possibilidades de realizações artísticas. Nem preciso citar o surrealismo ou o expressionismo para provar isso. Foi um grande avanço, um legado para o mundo contemporâneo.

Porém este mesmo avanço trouxe, como um vírus que se ocultava em células saudáveis, a possibilidade do embuste. Os primeiros a se aproveitarem disso foram os conhecedores das teorias que davam base para as novas escolas artísticas; os curadores, galeristas e artistas sem talento passaram a ludibriar as pessoas mais simples, sem conhecimento do universo teórico.

Logo surgiu o “tudo é arte”, e uma série de obras sem valor tomou conta do meio artístico, quase substituindo e destruindo as realizações legítimas. É a chamada “arte contemporânea”, que ninguém pode questionar sem ser taxado de ignorante. Hoje pode-se deparar com uma obra de arte que consiste em um cachorro faminto amarrado em uma galeria, abandonado lá até a morte; um monte de tijolos amontoados; um homem que enfia um crucifixo no ânus; uma rajada de vento; uma cama desarrumada com preservativos usados; uma mulher que enfia salsichas na vagina; carros pendurados no telhado; um tubarão em formol; um papel que certifica “vale uma obra”.  Tudo isso é arte. A crítica mexicana Avelina Lésper é uma das poucas no mundo que desmascara essas farsas.

E os quadrinhos, o que tem a ver? É óbvio, notei que essas teorias, na categoria doentia do embuste, já vem sendo aplicadas aos quadrinhos. Atualmente já existe uma súcia de artistas que vive da falsificação pura e simples. Sem talento ou capacidade alguma, extraem fama e reconhecimento do meio onde medram estudiosos, editores e críticos embusteiros, todos tentando enganar o público com obras sem valor algum.

Afinal, “tudo é arte, tudo é quadrinhos” mesmo os rabiscos de uma criança débil mental, e um público de deslumbrados, com medo de serem chamados de ignorantes, cala a boca.

Um exemplo desta tendência é David Lasky, artista americano de Seattle, suas experimentações formalistas poéticas evidenciam o charlatanismo desses quadrinhos. Em 2002 ele publicou uma “adaptação” de The Raven, de Edgar Poe. No trabalho, que você pode ver abaixo, o artista pretende questionar a necessidade de imagens nas HQs.

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“Edgar Allan Poe foi por um bom tempo meu escritor favorito, porém as adaptações de suas obras para quadrinhos em sua maioria eram decepcionantes, os artistas desenhavam imagens muito mais assustadoras e exageradas do que o necessário. O texto de Poe, por si mesmo, já era suficientemente assustador. Então eu decidi deixar as palavras fazerem quase todo o trabalho na minha adaptação de seu poema mais famoso. Determinei que poderia usar quadros, balões de fala, etc, mas não poderia desenhar nenhuma figura de verdade. Eu também me permiti o uso de pretos sólidos e formas abstratas pretas.”

Dessa forma o artista (que já ganhou um prêmio Eisner) justificou, com um blá blá blá formalista, o fato de que não fez nada. Sua “adaptação”, por assim dizer, não passa de uma transcrição do texto de Poe para quadrinhos vazios. Lembra ou não o clássico do embuste nas artes plásticas “quadrado branco sobre fundo branco”? Mas a crítica o adora, dizem que ele “sugere”, “expande”, “desaliena”.

A desculpa de que ele “sugere” isto ou aquilo com suas formas pretas sólidas, com seus negativos e positivos, não passa de macaqueação do linguajar algarávico dos viciados catálogos de artes plásticas, onde textos vazios de sentido, escritos por curadores espertalhões a troco de fortunas, com jogos de palavras pomposas, substituem o raciocínio verdadeiro do leitor na percepção da obra, em um esforço desonesto para tapear o público desavisado. Este subterfúgio tem se tornado comum na crítica de quadrinhos, na falta do que dizer, inventa-se um bruaá verborrágico. Outro dia li um gibi chamado O gosto do Cloro, uma história simples sobre um cara que vai nadar em uma piscina pública e conhece uma garota por quem se apaixona, nada de mais, porém, na orelha, havia um parágrafo incompreensível sobre a “incompletude insustentável alienante metafísica incapacitante silenciosa contemporânea”. Ora, qualquer pessoa inteligente que goste de ler gibis sabe que tudo isso não passa de enganação.

Você pode pensar que essa tendência é estrangeira, mas não é, já chegou ao Brasil e tem tudo pra fazer sucesso. Fiquei sabendo do lançamento de um jornalzinho chamado Suplemento, que vem tratar deste tipo de quadrinho. Outro dia deparei com uma notícia que me fez rir alto, um curso de “apreciação” de quadrinhos. Custava uma fortuna pra você se inscrever. Os caras caíram numa vibe tão ridícula que agora querem nos ensinar a ler gibi! E tem gente que paga, como eu ironizei nas redes sociais, ler quadrinhos agora vai ser como apreciar vinhos, é coisa de gente chique e elegante que viaja pra Paris todo ano. Nunca vi coisa tão brega em toda minha vida, nunca tinha visto quadrinhos como forma de vaidade intelectual. Eles vão se reunir em uma sala chique com lareira, pegar os gibis com luvas e citar frases de Foucault fazendo biquinho e falando com sotaque francês da Vila Madalena? Quem vai cair nessa senão jovens incautos que nunca leram quadrinhos? Afinal, annosa vulpes non capitur laqueo.

Não tenho nada contra o cara ser trouxa, cada um faz o que pode e acha melhor. Porém chama a atenção o fato de que toda essa cabotinagem não tem nada de divertido, os trabalhos são melancólicos, feios, de leitura desagradável, quando o espírito dos quadrinhos sempre foi diversão. Os artistas tentam enganar o público e os leitores enganam a si mesmos. Quem os questiona é taxado de ignorante.

Mas fazer o quê? Todo mundo precisa de alguma mentira pra acalentar sua vaidade. E você, vai calar a boca?

Mais trabalhos de David Lasky aqui.

Fonte das imagens The Comics Journal

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8 comentários

  1. Acho que esses quadrinhos experimentais tem seu publico do mesmo jeito que o cinema de arte tem o seu, diferente das artes plasticas que hj em dia vc não vê nenhuma forma de arte sem ser a “contemporânea”. Alem disso muito do que hj parece ser experimental de mais vai ser incorporado na linguagem assim como os cortes bruscos da Nouvelle vague.

    Claro sempre vai haver os picaretas, mas onde não existe esse tipo de gente?

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  2. Os quadrinhos “autorais”, bem esses são piores porque se acham “elevados” e o que é elevado para eles? Bem, é simplesmente fazer apologia a drogas, homossexualidade, feminazismo, ecologismo bocó ( que é bem diferente do ecologismo real) ateísmo e revisão histórica tosca e teleguiada por interesses escusos. Os ditos quadrinhos autorais não passam de cartas marcadas, só são publicados os que seguem a cartilha sebosa do globalismo, quadrinhos realmente bons são sumamente ignorados.

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