A Trilogia Nikopol – Obra-prima incompleta

Trilogia Nikopol

 

A chamada Trilogia Nikopol é um clássico dos quadrinhos europeus, obra do artista iugoslavo Enki Bilal, produzida entre 1980 e 1992.  Seus três volumes são A Feira dos Imortais, A Mulher Enigma* e Frio Equador. Eu a li pela primeira vez há mais de dez anos, ainda na edição da Martins Fontes, que lançou apenas os dois primeiros volumes. É completamente pintada a mão em uma incrível técnica mista onde o artista utiliza a tinta acrílica para as manchas da base sobre um esboço de carvão, acrescenta o pastel para definir as figuras com linhas e volta com pincéis para fazer luzes. A arte impressionante dessa HQ a colocou no rol das maiores realizações dos quadrinhos. No entanto, o terceiro volume, imperfeito, faz com que seja uma obra-prima incompleta. A atual edição brasileira é da Nemo, com uma tradução bem diferente da antiga.

Feira dos imortais

A Feira dos Imortais (1980)

A imersão em um mundo sujo, doente e distópico é chocante logo no início da leitura deste primeiro volume, somos apresentados a uma Paris semidestruída após duas guerras atômicas, em 2023. Sobre um astroporto, aparece uma pirâmide de pedra, na verdade uma nave espacial e uma ameaça ao regime vigente. Nela está a confirmação de uma das teorias mais bizarras da pseudociência do século XX: os deuses eram astronautas. Eles são egípcios, Bastet, Thoth, Anúbis, Bes e Khépri, exatamente os mesmos e com a mesma aparência dos seres mitológicos que conhecemos. São figuras humanoides com cabeça de animais representadas em tons cinza alienígena, porém com hábitos quase humanizados. Jogam monopoly, assistem TV e se banham em sangue pra passar o tempo.

Paris é uma cidade estado, vive sob um regime fascista semelhante ao de Mussolini – tudo para o estado, nada fora do estado. O ditador é Jean-Ferdinand Choublanc. É véspera de eleição, preocupado com os grupos terroristas opositores, decide barganhar com os deuses. Como todos os déspotas, ele sonha com a imortalidade. Os deuses exigem combustível para a nave, ele dará a enorme quantidade exigida a eles, desde que lhe concedam o dom de viver ad aeternum. O deuses não concordam, tem desprezo pelos mortais.

Somos apresentados a Alcide Nikopol, astronauta de volta a terra por acaso, após trinta anos congelado, vagando pelo espaço em uma nave criogênica pagando pelo crime de deserção. Ao seu encontro vai um dos deuses egípcios, o renegado Hórus. O deus tem o poder de se desmaterializar e tomar o cérebro dos humanos. Ele e o hospedeiro podem manter um diálogo, como se o deus fosse uma segunda consciência na cabeça do humano, mas Hórus pode também “desligá-lo” e tomar o controle.

Para tirar uma rixa com os outros deuses, Hórus decide utiliza-lo para se aproximar do ditador e tomar o poder em Paris. Deseja ter o controle do combustível do qual dependem os outros deuses, para assim fazê-los submissos, dominando a nave. Sua ganância o faz corromper Nikopol, que em uma competição de esportes se apresenta como refugiado do regime comunista eslovaco, inimigo de Paris. Manipulado, logo torna-se candidato na eleição. Os outros deuses descobrem o ardil do maquiavélico Hórus, e o final é mais tirania e loucura.

Este primeiro volume da trilogia Nikopol é uma alegoria sobre a imortalidade e o poder, como essas quimeras podem acalentar a ambição e os mais pérfidos desejos humanos, corrompendo-nos. Paris é uma sociedade que depois da catástrofe busca a vida na criação de uma nova raça, no poder e na guerra; as mulheres vivem aprisionadas para procriar, a morte é o maior inimigo. Há o ditador fascista Choublanc, tentando chantagear os deuses egípcios para se tornar imortal e, dessa forma, manter-se no poder não apenas até a morte, mas para sempre; há o astronauta Nikopol, vindo do espaço depois de trinta anos congelado, sem envelhecer, experimentando uma ínfima porção da imortalidade e conhecendo o verdadeiro imortal deus Hórus. No ambiente eivado de ferrugem, sujeira, onde tudo parece velho e acabado, a presença de um homem de outra época, anterior a toda essa decadência é o grande conflito da HQ e espelha os grandes conflitos das histórias de ficção científica.

Neste mundo tirânico, pressionado por uma entidade amoral, de todas as formas o humano é corrompido, em suas concepções morais, políticas e éticas, tudo pelo poder. Hórus é como seu inconsciente, sussurrando com voz demoníaca o que ele deve mentir, quem ele deve matar e violentar, isso por estar acima dos “antiquados valores humanos”. Os dois renegados, o homem e o deus de antanho, elevam-se acima da escória doente de paixões, de ignorância e radioatividade para usurpar o poder total sobre seus semelhantes, mas o fim óbvio é o degredo e a loucura. A uma ditadura fascista se sucede outra, comunista. Enki Bilal expressou aqui todo seu pessimismo com os jogos de poder e interesse, em obra magnífica de clamor atemporal, justificando o desprezo dos deuses pelos homens que almejam ser mais do que podem, charlatães familiares das humanas insânias.

jillbioskop_mulherarmadilha_thumb

A Mulher Enigma (1986)

Ano 2025, Londres é decadente e sombria, dominada por grupos terroristas minoritários lutando pela destruição mútua. Não há grandes explicações, não há política, estamos aqui neste local sujo e deprimente e essa é a história de uma mulher. No mesmo momento em que o deus Hórus é libertado de sua prisão espacial por incautos astronautas humanos, a mulher enigma escreve em seu Script Walker. Jill Bioskop, jornalista, pele alva, corpo formoso, cabelos azuis. No telefone, ouve seu amante extraterrestre sucumbir em um atentado, ele tentava explicar um mistério, mas Jill não compreende. Está arrasada, amava o extraterrestre de sangue branco, sem rosto, lenço preto e sobretudo. Tomando uma pílula, ela o esquece.

Um colega jornalista fica sabendo da história e decide tirá-la da cidade, enviá-la para Berlim, Alemanha. Porém a mulher enigma é uma assassina, o desejo de seu colega é o verdadeiro motor de sua generosidade e ela o mata antes de consumado o ato, na cama. Há muito sangue, vermelho dessa vez, mas Jill esconde o corpo facilmente. Há pilulas de várias cores, uma cor traz esquecimento, tomando, o colega desaparece das teias da memória. Parte para Berlim, sobrevoando o tétrico Tâmisa de sangue – nunca Londres foi tão maldita. Olha o papel amarelo que guardou até agora, tirado do cadáver do amante extraterrestre, é quando descobre sua função, escrever para o passado. Esse era o mistério, seus textos são transmitidos para 1993 pelo Script Walker.

No hotel em Berlim, mais desejo, mais um assassinato, mais uma pílula. O esquecimento. Quem vai se lembrar do concupiscente piloto do avião que a trouxe de Londres? Nem ela. A mulher enigma confessa seus crimes escrevendo pro passado, mas os esquece no presente. Grita nas ruas enquanto as bombas caem em guerras que no fundo não lhes despertam mais nenhum sentimento. Uma mancha vermelha horrível e indelével cresce a partir de suas mãos, as luvas pretas não a cobrem mais. Sua alma escurece. Ela se pergunta se não seria divertido matar outro. Até que encontra o pervertido deus Hórus, de volta de sua prisão espacial. Frente a escuridão inumana e eterna, enlouquece.

Nikopol deixa a clínica psiquiátrica para encontrar Hórus, prefere voltar a seu corruptor, não se adapta mais a vida corriqueira, senão como um insano. Prefere viver no irracional e, através do deus louco, vai encontrar a mulher enigma, os três se reunirão, alimentando a loucura um do outro.

A trilogia Nikopol atinge seu ápice neste volume, em todos os aspectos. O texto é muito menos explicativo, equilibrado e não tem os excessos do primeiro volume, causando maior envolvimento emocional. O tema aqui não é a política, mas a degradação psíquica de uma mulher arrasada pela morte do amante, que era sua droga, sustentação emocional. A partir dai ela passa a depender de psicoativos, tentando fugir de uma realidade terrível, cada vez mais imersa em uma percepção de mundo deformada. Sem escapatória, em cidades de morte, alienação e dor, destruídas por sucessivas guerras e ódio entre os múltiplos povos que as habitam, a mulher também vai se destruindo.

O cenário criado por Enki Bilal neste volume da trilogia é de um mundo interior em degradação. Todos os detalhes dos ambientes, os azulejos dos horrendos quartos de hotel, as paredes mofadas, os veículos enferrujados, o sangue e as peles das variadas criaturas se harmonizam para construir o mundo subjetivo da Mulher Enigma. O magnífico uso das cores parece dever muito ao pintor surrealista Max Ernst, assim como a representação das criaturas mitológicas e o clima geral de pesadelo. Os textos concisos, notas jornalísticas, porém mais semelhantes a confissões de um diário, colaboram para gerar identificação. O ritmo de leitura é bem mais envolvente do que no primeiro volume, a interferência dos deuses é mínima. A Mulher Enigma investiga a loucura e a corrupção, mas dessa vez não pelo poder e sim pela angústia de estar vivo em um mundo já completamente corrompido.

Frio Equador (1992)

Desaparecidos por nove anos após os eventos de A Mulher Enigma, os três personagens protagonistas da Trilogia Nikopol vão fazer cinema na África (?!). São procurados pelo filho de Alcide, que abandonou o governo de Paris para achar o pai. Mas a África é um lugar muito mais inóspito do que se pode imaginar em 2034, trens lotados de animais selvagens, moscas ferozes, um deserto de abutres e ruínas. Niko encontra Yéléna Prokosh Tootobi, uma geneticista especializada em aberrações hereditárias. Apaixona-se na hora.

Os dois vão pra Equador City, cidade no leste africano, de definição confusa, dominada por uma corporação mafiosa, a KKDZO, controlada por cinco tipos esquisitos de descrição mais confusa ainda. Aproxima-se da cidade a pirâmide-nave dos deuses egípcios. Nikopol surge agora como um lutador de Chess Boxing (?!), uma mistura inusitada de boxe com xadrez e é o campeão mundial com o nome Loopkin. Ele vai colocar seu título em jogo contra Johnelvis Johnelvison, ex pintor, ex roqueiro, ex escritor. Este indivíduo surpreendente acaba conquistando Yéléna Prokosh Tootobi. Segue-se o retorno de Jill Bioskop, uma luta mortal, distúrbios linguísticos de um Nikopol destruído e o julgamento final de Hórus, capturado pelos deuses, além do fim da cidade.

O que acontece no terceiro volume da Trilogia Nikopol de Enki Bilal? Este volume é mesmo sério? Logo a primeira vista a impressão que temos é que foi realizado só pra tirar uma grana, tipo o Cavaleiro das Trevas II, de Frank Miller. Que o autor tenha optado por fazer uma versão humorística dos primeiros volumes, levando em conta que já existia antes alguns elementos de humor, é compreensível. Mas Frio Equador de engraçado não tem nada, parece mais uma ridicularização do próprio trabalho. Enquanto os primeiros dois volumes trazem um fino humor surrealista, este é óbvio, escrachado ao ponto de não ter graça.

A confusão de seu roteiro, cheio de diálogos desnecessários, recordatórios explicativos infindáveis com informações repetitivas e monótonas tornou este volume uma mixórdia estapafúrdia. Quem engole um trem cheio de animais, uma geneticista que caça partos bizarros, inserções do que seriam películas de cinema sem sentido algum e Nikopol falando egípcio?! E os sujeitos bizarros donos da KKDZO, sem papel nenhum na história além de fazer trapalhada e tornar a leitura mais entediante com suas descrições idiotas? E a repetição das tais escalas? É insuportável!

Até a arte é preguiçosa, rabiscada, longe do hyperrealismo dos dois primeiros volumes, é uma estilização canhestra, os personagens foram todos descaracterizados e estão irreconhecíveis, as páginas são toscas e mal compostas, a leitura se tornou um suplício. A arte de Bilal se resumiu a um esboço, parece que ele imita a si mesmo, a mulher enigma aparece feia, Nikopol é uma caricatura, os deuses egípcios ainda ostentam suas cores e tons alienígenas, mas o acabamento deixa a desejar.

Enquanto os dois primeiros volumes são sublimes, dignos de figurar entre as melhores HQs já realizadas, este terceiro tornou a  Trilogia Nikopol uma obra-prima incompleta. Por que Enki Bilal estragou o que poderia ser um trabalho perfeito? Aqui e ali há algumas pistas indicando que ele poderia ter realizado uma obra mais séria, como o diálogo entre Jill Bioskop e Yéléna Prokosh Tootobi, onde elas resumem suas vidas mortais e passageiras, enquanto Niko foi para o espaço experimentar um pedaço ínfimo de imortalidade – como o pai um dia experimentou – e Nikopol teve sua existência prolongada por Hórus, com a dádiva do esquecimento, elas se acabarão. Há também o diálogo de Hórus com Nikopol em que o deus anuncia seu legado para o amigo, este poderia ter sido bem explorado, mas tudo que há de bom em Frio Equador acaba ofuscado pelo nonsense, e isso só pode indicar que Bilal queria mesmo satirizar o próprio trabalho.

Não podemos dizer que ele não tinha esse direito, ficamos com uma obra -prima incompleta, os dois primeiros volumes já nos bastam, tomamos uma pílula e este terceiro cairá no esquecimento.

*Obs: nesta resenha, chamo o segundo volume da Trilogia de Mulher Enigma, como na tradução antiga da Martins Fontes, por não concordar com o termo “Armadilha” da atual tradução.

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4 comentários

  1. Tinha curiosidade de ler, apesar de não ser muito habituado a ler quadrinhos europeus (tirando uma coisa ou outra da 2000 AD). Resenha interessante, vou procurar.

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  2. Eu sou fascinado pelo Bilal e eu acho a obra dele fantastica! Eu consegui comprar a trilogia por um preco bem acessivel na bienal de sp anos atras! O livro em si é belissimo e espero que novas obras dele sejam trazidas para ca!

    Eh meio salgado mesmo essas edições luxuosas mas vale cada centavo!

    Foda demais!!!! Obrigado pela analise coerente e fiel!!

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