Pelo fim do MinC, e pelo fim da ignorância!

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O fim do Ministério da Cultura e sua integração ao Ministério da Educação, como uma pasta, gerou inúmeras reações na internet. Há cerca de uma semana a polêmica permanece. A divisão entre os pró e os contra a medida é bem marcante, e o debate, agressivo. Talvez nunca em nosso país tenha ficado tão claro que há uma guerra cultural em curso. De um lado, temos artistas, produtores culturais e escritores com tendências a esquerda, partidários da presidente afastada; de outro… bem, do outro lado temos jornalistas, alguns intelectuais, quase nenhum artista, e muitos palpiteiros do meio virtual, inclusive pastores evangélicos, a favor do governo interino e do fim desse Ministério. Há uma série de equívocos no discurso dos dois lados, um bom montante de interesse no primeiro grupo e muita ignorância no segundo. Quero primeiro deixar claro que sou a favor do fim do MinC, mas não quero ser associado ao discurso dos ignorantes, assim com não apoio o discurso dos interesseiros.

Meu pai dizia que arte é uma coisa que você faz quando não gosta de acordar cedo e não quer trabalhar. Uma “coisa de hippie”. Muitas vezes fui proibido de desenhar aos berros de “isso não é um trabalho”. As reações de uma certa direita brasileira ao fechamento do Ministério da Cultura, principalmente nas redes sociais, me lembraram este sábio “pensamento” do Velho. Essa direita burra começou repetindo ad nauseam o mesmo argumento: o MinC virou uma teta onde mamam artistas milionários, vagabundos (isso não é um trabalho!) e esquerdistas aliados ao governo afastado. Onde estariam certos?

Sim, a maior parte dos artistas é de esquerda, e isso não é só no Brasil, acontece em quase todo o mundo. Um grande problema dos conservadores é que a maior parte tem aversão as artes,  por razões religiosas ou morais (principalmente os protestantes). Já os liberais não veem interesse econômico nelas. Liberais acham que artistas não produzem riqueza. Para essas pessoas, riqueza é só dinheiro. É o homem ocidental decadente, sem espiritualidade, cujo único horizonte é comprar um carro novo. Liberais acreditam que só cultura pop tem valor, pois gera rios de dinheiro.

A visão tacanha tanto de liberais quanto de conservadores com relação as artes foi uma das causas da hegemonia cultural esquerdista. Pode-se dizer hoje, sem exagero, que noventa por cento dos artistas são de esquerda. Para os revolucionários, arte também não produz riqueza, mas ajuda a encucar a ideologia, então eles se apropriaram, ocuparam os espaços e hoje fazer arte é quase sinônimo de ser de esquerda.

Mas seriam todos aqueles artistas também milionários e vagabundos?

Vi um post por ai, supostamente feito por conservadores, mandando artistas irem trabalhar. Quem posta esse tipo de coisa não sabe que a maior parte dos artistas tem outros trabalhos, são professores, trabalham em museus, são designers, publicitários, alguns são advogados, empresários, comerciantes, jornalistas, motoristas de táxi, etc. Viver de arte é uma coisa muito rara. Mas esses conservadores acham que todo artista é um Chico Buarque, um Ziraldo, um Zé de Abreu, um Wagner Moura. Não é bem assim, são pouquíssimos os que conseguem sucesso com seu trabalho a ponto de atingir riqueza. E acredite, dá trabalho. Eu mesmo nunca conheci um artista que vivesse totalmente de arte.

E aqui entra a Lei Rouanet, responsável por grande parte da polémica.

Funciona da seguinte maneira: você tem um projeto de um filme, por exemplo. Custa três milhões. A sua produtora apresenta esse projeto no edital da lei Rouanet. Há milhares de projetos, de todo tipo, dai uma comissão de pessoas da área analisa os projetos e escolhe aqueles que terão autorização para captar recursos junto a iniciativa privada. Se o seu projeto for selecionado, você vai ter autorização para tentar captar esses recursos. Digamos que você consiga, uma ou várias empresas lhe concedem os três milhões. Você faz o seu filme, com a contrapartida de garantir ingressos gratuitos ou oficinas de cinema em escolas públicas, por exemplo. As empresas que lhe financiaram terão a sua marca no filme e parte do dinheiro será descontado nos impostos. Pessoas físicas também podem apoiar.

Algum tempo atrás, um blog de direita levou um post irresponsável citando os doze projetos mais absurdos já aprovados pela lei Rouanet. Isso gerou na internet a convicção de que todo projeto que passava pelo MinC era proveniente de artistas milionários e já bem conhecidos pelo público, que não precisam desse tipo de financiamento. Logo, o MinC deveria acabar, pois tinha virado mamata. Para derrubar esse discurso bocó, cito apenas um exemplo. José Mojica Marins, o criador do personagem Zé do Caixão. Longe de ser um milionário, muito mais longe ainda de ter ideologias políticas, financiou o longa metragem “Encarnação do Demônio” em 2008, através de lei de incentivo. Quem conhece a história de Mojica sabe que ele sempre financiou seus filmes com recursos privados, de forma muito inventiva, inclusive, vendendo cotas nos filmes. Teve prejuízo, foi passado pra trás, faliu várias vezes. Passou trinta anos sem dirigir uma película, quando voltou, já era um ícone reconhecido internacionalmente em sua área. Ele captou um milhão de financiamento. Vagabundo? Esquerdista? Milionário? Ele é um ícone cultural legitimamente brasileiro e se construiu com esforço próprio. Precisou de uma ajuda para voltar a fazer um filme e ter sua importância devidamente reconhecida.

Mas o que aconteceu com a lei Rouanet, o que a fez gerar projetos bizarros e toda essa campanha de difamação? Essa lei era pra ter sido um mecanismo que criaria dentro da iniciativa privada o interesse e o know how para o mecenato. Assim que as empresas percebessem que financiar arte gera um marketing positivo, fariam isso sem mesmo a renúncia fiscal. A produção artística iria florescer, independente do estado. Porém a lei foi viciada e aparelhada ideológicamente. Lógico, no governo do PT. Artistas alinhados ao governo parecem ter uma prioridade na aprovação.

Da parte da iniciativa privada também há problemas. No Brasil, infelizmente, é muito mais fácil fazer um empresário pagar cem milhões para que o Neymar vista uma camiseta com a marca de seu produto por 2 segundos ou custear o show de uma banda de sertanejo do que pagar cem mil para um jovem violinista ir para a Europa aprender a tocar Mozart em uma orquestra, ou pagar dez mil para publicar o livro de um ficcionista promissor.

No Brasil arte não é nobre. Nobre é chutar bola e tocar música ruim. Dai que as empresas só se interessam em financiar projetos com renúncia fiscal de artistas já conhecidos, com o seu markerting já garantido. E quais critérios se utilizam? Qual a idoneidade da seleção? Isso é o que deve ser questionado.

Voltando ao governo. Como na prática é o estado que paga, somente os projetos de interesse e com aparelhamento ideológico são aprovados.
Por isso é necessário o fim do MinC, sua atividade se tornou suspeita, tanto pelo aparelhamento político, quanto pelos critérios de seleção utilizados pelas empresas que financiam os projetos. É necessário passar um pente fino e rever tudo. É colocar as coisas nos trilhos. Mas não sei se é necessário o fim de todo financiamento artístico de uma hora pra outra. Lógico que tudo o que puder passar para as mãos da iniciativa privada deve passar. Mas qual empresa brasileira vai querer financiar uma orquestra sinfônica, uma exposição de pinturas naif ou um filme do Zé do Caixão? Vamos ser realistas, não estamos nos EUA nem na Inglaterra.

Após esgotar o discurso da vabundagem, os ilustres conservadores e liberais passaram a dizer que o fato de o Brasil hoje ter cinema ruim, músicas horríveis, literatura pobre e teatro ridículo é culpa do Ministério da Cultura, criado em 1985.
Esqueceram que a tropicália, o teatro do oprimido, Paulo Coelho, a pornochanchada e o cinema novo, as maiores manifestações esquerdistas nas artes brasileiras, floresceram na época da sua tão louvada ditadura? Ou acham que naquela época tudo era maravilhoso?

Um desses conservadores postou uma matéria sobre uma youtuber escritora, hoje tão citada quanto Machado de Assis. Isto para ele é legado de 30 anos de Minc. Só faltou afirmar que o Ministério criou os youtubers, um fenômemo mundial que vem salvando editoras da bancarrota.

Ele deve ter se esquecido que Machado ainda é obrigatório nas escolas, deve ter se esquecido que, se as editoras não publicam essas porcarias surgidas na internet, não ganham nada. A Cosac Naif  só publicava livros de arte, faliu. Mas esse cara nunca deve ter lido um livro de arte.

Um intelectual liberal, entendedor de economia, porém néscio em cultura, cuja maior experiência nessa área parece ter sido uma visita a Disneylandia, postou uma foto da performance recente onde os “artistas” metem a mão no ânus uns dos outros. Para ele, isso também seria legado do Minc e mais uma justificativa para seu fim. Mas este ilustre economista não sabe que esse tipo de “arte” existe desde os anos 1960 e o Brasil é um dos países onde menos floresceu, mas é muito comum na Europa. A performance em questão acabou de ir para a Alemanha. A decadéncia das artes visuais não é obra de um ministério, sendo um assunto muito complexo para ser discutido de maneira tão simplista.

Esse pessoal não sabe nem do que fala. De cultura não entendem nada. De arte, muito menos. Sou a favor sim do fim do MinC, mas por favor, não me colem nesse discurso imbecil, porque eu não falo de uma coisa sem entender. O fim de qualquer financiamento estatal para atividades culturais é algo que precisa ser discutido, porem não imposto, em um país que levou 500 anos para ter um leve vislumbre das teorias econômicas liberais.

Além dos blogueiros conservadores, temos até pastor evangélico chamando artistas  de vagabundos, sendo que eles vivem de dízimo. Que trabalho é esse? Pelamordedeus, quero distância de jecas ignorantes.
E outra coisa, por que não criticam o Ministério dos Esportes, antro de corrupção, que torrou centenas de bilhões em estádios inúteis e superfaturados? É lógico que a cultura desse povo conservador falastrão não passa de futebol e igrejinha. Depois que o PT caiu, eles não tem mais o que dizer.

O maior acerto do Presidente Temer foi acabar com o ministério da cultura e fundí-lo com a pasta de educação.
Há tempos que a produção cultural brasileira bancada pelo governo federal se baseia em critérios suspeitos, de fundo político. Acabar com o centro gerador dessa aberração (sim, porque arte alinhada com uma ideologia oficial não passa disso) é o primeiro passo rumo a uma reforma cultural, que é o que verdadeiramente precisamos.
Além disso, cultura não é somente arte, mas também o entendimento e a preservação de usos e costumes, e tem tudo a ver com educação. Precisamos também de uma reforma educacional.
Caminhando juntos, educação e cultura podem livrar o Brasil da terrível mancha vermelha que o maculou por tantos anos.
A grande dúvida é se teremos gente competente no comando para fazer isso. A julgar pelo discurso ignorante e vagabundo dos que defendem o fim do Minc, eu duvido muito.

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12 comentários

  1. Você falou a verdade, destrinchou a coisa toda. Enfim, escolheu o “pior” caminho para angariar inimigos. A Rouanet é uma lei que desonera o Estado, que deixa de arrecadar, e repassa o mecenato a iniciativa privada. Na prática, o PT e a base aliada, descobriram um jeitinho de patrocinar o restolho da cultura brasileira. E por que a lei, apesar de bem intencionada, tem de acabar? Porque a revolução é anamórfica, ela não precisa de partido. A ideologia que a mantém viva é a censura politicamente correta (como você conhece muito bem). Na Bahia, por exemplo, músicas e trabalhos que tenham erotismo e violência não recebem patrocínio, devido a uma lei proposta pelo PT pela deputada Luiza Maia, uma ditadora feminista.

    Que importa se o PT está lá? O ministério público e os militantes, mesmo os de partidos sem ideologia clara, mimetizam a ideologia apartidária.

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    1. Nunca achei que a cultura deveria perder total financiamento, mas acho que a discussão mesmo tôlamente errada é melhor que o silêncio complasivo. Faz alguns se informarem, reverem conceitos e opinar.

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    2. Pois é, tem gente explorando isso de maneira demagógica. É uma ressaca pós impeachment de alguns e, como eu falei, aversão as artes de outros. O que é péssimo, pois assim vão perder a guerra cultural, que é o mais importante.

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  2. Eu sempre pensei sobre o empobrecimento da cultura como essa coisa complexa da qual você falou, me policiando para não apontar causas únicas ou só o que eu não gosto como sendo responsável. Mas por alguma razão no meio de todo esse furor de opiniões mal formadas e imagens com frases de efeito que tomou a internet durante o processo de impeachment, me deixei levar e reduzi tudo aos mesmos argumentos rasos sobre MinC/Rouanet de todos.

    O Mojica foi um ótimo exemplo. Eu sempre adorei os filmes e a carreira dele, mas nunca parei pra relacioná-lo com esse contexto, isso realmente me fez repensar muitas coisas.

    Texto crítico e equilibrado como sempre. Muito obrigado, Mauro.

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  3. Dae Mauro. Ficou legal o texto, fomentou boas reflexões.
    Quando se trata do financiamento privado das produções culturais, não podemos ser ingênuos de acreditar que “A produção artística iria florescer, independente do estado.” Não é por acaso que estamos vivenciando essa verdadeira tragédia cultural

    Vlw!

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  4. “pornochanchada” de esquerda? E cara, como você disse no final minc não cuida só da promoção de eventos etc, cuida de toda parte de preservação de patrimônio material e imaterial , e creio que não preciso lhe dizer o quanto isso é debilitado aqui no Brasil(exemplo: nossos documentos historicos viram lixo porque não existe politica e recurso pra preservar eles), você achar mesmo que juntar com a educação(que já é cheia de problema para resolver) vai ser bom?Sem falar que no final acusa de aparelhamento e não prova, só diz que pode haver

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  5. Escreveu muito, tergiversou pra valer e o tempo rapidamente mostrou que falou bobagem, pois os principais financiados pela lei Rouanet não são ligados ao PT. ! E o texto demonstra que o sujeito que o escreveu não entende nada de política cultural e do quanto a identidade nacional está associada a sua cultura!
    Antes de mais nada, há um imenso gap entre os projetos e a política culturais dos governos Lula e dos governos Dilma. E se o sujeito que escreveu este texto raso se informasse melhor, poderia conhecer um pouco mais dos excelentes projetos culturais deslanchados a partir do MinC – e de outros financiamentos públicos que nada tem a ver com lei Rouanet.
    Mas o cara quer ser o diferentão da direitalha! E está pregando para a sua turminha de convertidos.

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