Por que a Mythos não republica a Espada Selvagem de Conan?

ESC

Uma dúvida surgiu nas redes sociais entre os fãs de Conan: Por que a Mythos não republica a Espada Selvagem de Conan nos moldes que a planeta DeAgostini vai fazer na Espanha?

O fã Vítor Hugo Kelly mandou um e-mail para a editora e recebeu uma resposta muito esclarecedora do editor Fernando Bertacchini. Para que o texto não se perdesse nas redes sociais, que mantém algoritmos privilegiando fotos e videos, decidi reproduzi-lo aqui, visto que muitos dos meus leitores são fãs do cimério. Assim fica devidamente explicado porque, infelizmente, não teremos tão cedo uma republicação da ESC no Brasil.

Imagino que você faça parte de grupos de fãs do Conan em redes sociais, pois recebemos outros e-mails bem parecidos com o seu. Eu estava ocupado demais com Groo versus Conan, mas agora que esse título está na gráfica, posso responder seu e-mail adequadamente. E, claro, pode retransmitir a resposta aos grupos.

O país onde mais se republicam quadrinhos do Conan produzidos pela Marvel é a Espanha. Ao longo dos anos, inúmeras coletâneas foram republicadas. Mas se você pegar exemplares de uma coleção publicada há 15 anos e comparar com a reedição mais recente, vai notar que o texto é praticamente o mesmo. Ou seja, graças ao capricho na tradução, mantendo o texto em “norma culta” que lhe confere um aspecto atemporal, toda vez que querem lançar uma nova coleção, eles podem aproveitar o mesmo texto e, hoje em dia, até a mesma diagramação e letreramento. Ou seja, a produção dos relançamentos é muito rápida. Aqui, as traduções feitas no passado eram (na minha opinião) desleixadas, com um enorme volume de texto suprimido por causa do maldito formatinho. Mas até mesmo na Espada Selvagem (onde não havia a desculpa de “falta de espaço nos balões pra comportar todo o texto original”) também era praxe a mutilação de 30 a 40% de texto, simplesmente porque havia poucos letristas capacitados, e os prazos deles eram sempre os mais apertados. Por causa dessa cadeia de produção que visava muito mais rapidez do que qualidade, não podemos hoje em dia reaproveitar as traduções. Cheguei a planejar em 2013 uma coleção em capa dura, com edições trimestrais de 144 a 160 páginas, na qual republicaríamos a Savage Sword of Conan com as histórias em ordem cronológica. Mas o tempo de produção desses encadernados, só pelo fato de sermos obrigados a retraduzir tudo, já comprometia o projeto. Traduções no nível que fazemos levam três vezes mais tempo. Mesmo que fosse uma coleção trimestral, ela praticamente me deixaria ocupado fazendo somente isso, e neste mercado editorial restrito, a editora não pode ter um editor trabalhando em uma única publicação. Além disso, com a queda de vendas provocada pela crise econômica, e os custos gráficos cada vez mais altos, pois são cotados em dólar, o projeto da SSC em capa dura foi engavetado.

Ou seja, se existissem traduções completas e caprichadas desde a época da Abril, hoje poderíamos comprá-las (como se faz há décadas na Espanha), atualizar a revisão e enviar imediatamente para algum letrista. Com isso, seria mais rápido produzir reedições dignas da qualidade original da Savage Sword, sem o risco de que um único título “amarrasse” a produção e acorrentasse o editor somente a ele. Pra citar um exemplo, quando as histórias de Conan the Barbarian existentes em preto e branco terminaram (após a morte da Bêlit), adotamos aquela cronologia da Marvel como base da sequência da revista, não apenas pra poder usar histórias da SSC em ordem cronológica, mas também pra seguir o exemplo da Espanha, deixando como legado ao menos um lote de aventuras com texto que pode ser republicado na íntegra tanto hoje quanto daqui a 20 anos. Graças a esse cuidado, ficamos com um “estoquezinho” que nos permitiu produzir o álbum gigante Conan: O Libertador, que foi tão elogiado. E ainda temos nas mesmas condições as histórias desde a conquista do trono até o casamento com a Zenobia. Essa fase seria o segundo volume do “Conan gigante”, que estava planejado para o final de 2014, mas aí a economia do país entrou em crise e a cotação do dólar disparou… isso gerou não apenas custos gráficos astronômicos, mas também reajustes repentinos em contratos antigos, negociados em dólar com pagamentos parcelados (faturas com prazos de 30 e 60 dias triplicaram seu preço). Mesmo com o dólar tendo regressado a um patamar menos desastroso durante um curto período, o estrago da cotação 3,50 já tinha sido enorme, e agora esse pico ainda foi ultrapassado! Enfim, quando chegaram os primeiros orçamentos gráficos para o segundo “Conan gigante”, a direção da Mythos desistiu, pois o preço que seríamos obrigados a cobrar fatalmente afundaria as chances de venda.

Os mesmos fatores afetariam uma coleção de luxo da Savage Sword. Podemos afirmar que ela não venderia como água, pois seu custo de licenciamento, produção e gráfica resultariam em um preço de capa que pouquíssimos leitores poderiam pagar. Infelizmente, por fatores que não vou comentar aqui, o licenciamento de SSC custa bem mais caro, por exemplo, do que o licenciamento de qualquer título novo produzido da Dark Horse. Publicações inéditas sempre vendem mais que qualquer material antigo, mas SSC tem um custo bem superior. Se a cotação do dólar voltasse a um nível razoável, no mínimo uns R$2,50, e se ESTABILIZASSE nesse nível, poderíamos cogitar tanto o segundo volume gigante quanto a coleção trimestral da SSC em ordem cronológica. Porém, como essa possibilidade parece cada vez mais distante no atual cenário econômico, nosso único projeto com aventuras clássicas do Conan é a coleção The Chronicles of Conan, da Dark Horse. No mínimo os quatro volumes iniciais, onde foram republicadas todas as aventuras com arte de Barry Windsor-Smith, têm chance de ganhar uma versão brasileira, pois, como acabei de explicar, infelizmente o custo do material licenciado pela Dark Horse é muito mais justo do que o licenciamento de Savage Sword. E antes que você questione, “Mas a Dark Horse não publica SSC?”, já explico que sim, eles republicam, mas nesse caso, não são os licenciantes do título, ou seja, também eles são obrigados a licenciar ao custo bem alto, mas não podem revender. Somente as aventuras clássicas com as novas cores produzidas e bancada pela própria Dark Horse podem ser revendidas por ela. E mesmo assim, até essa permissão pode ser revogada pela Conan Properties sem prévio aviso.

Um abraço.

Fernando Bertacchini

Editor

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6 comentários

  1. Na verdade nunca entendi por que tantos titulos para conan. Eu só comprei a espada selvagem de conan. durante alguns anos achei que todas as historias dele seriam publicadas neste titulo. As revistas em formatinho a cores sempre achei a maior bobagem e tenho saudade do tempo em que superman e batman eram revistas grandes e em preto e branco.

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  2. Acho que não seria preciso modificar o texto numa republicação das edições da espada selvagem de Conan. Mas acredito que isso é mais uma forma de dificultar a sua republicação com desculpas fajutas por aqueles que não acreditam na força da espada guerreira e da sua permanente força de continuação. Mas acreditam mais em seus prejuízos do que na força de possíveis lucros. E às vezes acham arcaicas suas estórias, passadas numa era hibóriana muito diferente da nossa.

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  3. Há algum tempo, tive acesso a esta matéria sobre a Espada Selvagem, e algumas das considerações do Sr. Bertacchini me intrigaram, principalmente a questão sobre a “fidelidade” das traduções para o español. Como sou tradutor e estou atualmente envolvido com a pesquisa de histórias em quadrinhos sobre a ESC, resolvi buscar o corpus em español e fazer algumas comparações com o corpus em português. Assim sendo, comparei alguns trechos de ‘A filha do gigante de gelo’, uma estória bastante conhecida de Conan, utilizando o original e a tradução para o português, publicada pela Editora Abril, e a tradução em español. Evidentemente, as duas foram confrontadas com o original em inglês. De fato, a tradução em español, como bem salienta Bertacchini, é bem “colada” no original, ou seja, é, de certa forma, uma tradução mais “literal”. Isso não quer dizer que o texto soe sem naturalidade, mas sim que as omissões que ocorrem na ESC são bem menores no español. Também analisei a tradução da mesma estória em italiano, que sofre ainda mais com omissões se comparada com a ESC. Discordo que o fato de o corpus em português da ESC ser menos “fiel” do que o em español seja o real motivo pela não republicação das estórias de Conan no Brasil. Mesmo que pudéssemos reaproveitar todo o corpus da ESC isso não significa que as traduções não teriam que passar por alguma atualização, visto que todas as línguas são dinâmicas e uma expressão recuperada de uma maneira há 20 anos pode não refletir mais a linguagem corrente. Além disso, há a questão pictorial, que pode influenciar na interpretação textual. Ainda assim, não posso deixar de concordar com Bertacchini, em certa medida, quando ele afirma que as traduções da ESC eram desleixadas. Na estória sobre ‘A filha do gigante de gelo’ publicada pela Abril, por exemplo, há indícios de erros de tradução que ficam bem latentes quando comparados ao original e à tradução em español.

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